Madam C. J Walker: uma aula racial para você assistir



Por Luana Daltro, no Medium

Eu abri a Netflix e eis que me deparo com uma grata surpresa, o lançamento da série “A vida e a história de Madam C.J. Walker”, a primeira mulher negra milionária nos EUA. Confesso que desconhecia a história, mas desde as primeiras cenas fui tocada pela narrativa que aborda o empreendedorismo da mulher negra por meio de uma dor: a perda dos nossos cabelos. Imediatamente me fez relembrar do meu TCC, no qual tive a oportunidade de falar sobre cabelo crespos, especificamente, da transição capilar da mulher negra, e os impactos na sociedade.
Meu objetivo é mostrar, em alguns exemplos da série, como podemos aprender na prática como racismo, machismo, colorismo e muito mais acontece. Portanto, te convido a imergir nesta história comigo.

Conhecendo Sarah.
A história se passa em 1906, 43 anos após a libertação de negros nos Estados Unidos, o país vivia no regime de segregação racial e pessoas negras ainda eram vistas como servas de pessoas brancas.

Antes de ser conhecida como Madam C. J Walker, todos a conheciam como Sarah, uma lavadeira, mãe e esposa que morava em St.Louis, nos Estados Unidos. Sarah é filha de ex-escravizados, tem lembranças do período ainda vivas na sua memória. Nas primeiras cenas, já percebemos o desgaste e descontentamento de Sarah com a remuneração que ganhava lavando roupas, aliado à uma sede de mudança e um inconformismo com o rótulo de beleza dado às mulheres negras.

O Cabelo e o conceito de beleza

Quando Sarah narra a força e poder do cabelo em frases como: “Hair is beauty”, “Hair is power”, identificamos como o cabelo e a beleza são expoentes de mudanças e transformação social das mulheres negras. Para Quintão (2013), o cabelo reproduz sentidos individuais e coletivos por ser um elemento corpóreo que identifica e narra à história dos povos. Os sentidos produzidos podem ser vistos nas construções sociais vigentes nas sociedades.

Sarah é uma mulher negra de pele retinta, praticamente, fica careca após o estresse e o uso de produtos para o “cuidado” de seu cabelo. O marido após ficar anos preso, retorna agressivo e alcoólatra, e a abandona. Há uma virada na vida de Sarah com a chegada de Addie Monroe, uma mulher negra de pele clara, que vende produtos para cabelos crespos. Addie começa a tratar o cabelo de Sarah para que volte a crescer. O cuidado com o cabelo entre mulheres negras é um processo simbólico, um laço entre famílias e vizinhos, que reforça a nossa ancestralidade.



A partir do momento que seu cabelo cresce, Sarah se sente motivada a ajudar outras mulheres negras para reviverem o poder da confiança e da autoestima. Assim, entendemos como o cabelo exerce um poder que vai além do individual, torna-se coletivo, pois é um objeto corporal expressivo das construções sociais, que o colocam como inferior, refletindo a inclusão e segregação na sociedade.

Mulheres negras de pele retinta e de pele clara
Prestem a atenção nos diálogos e contextos que virão a seguir:
Sarah se sente tão confiante do seu ato, que resolve propor a Addie que seja uma de suas vendedoras. Porém, existe um problema: a diferença de tom de pele. Sarah não estaria dentro do padrão aceito de beleza para Addie, ato que reforça como é comum enquanto opressores reproduzirmos falas de quando éramos oprimidos.

Ela contrata vendedoras de pele clara, magras e com cachos abertos, e dá dicas para elas de como devem vender. Eis que Addie fala: “se uma LAVADEIRA como a Sarah consegue, vocês também vão conseguir” — como se o fato dela ser uma lavadeira a proibisse de ser uma boa vendedora, percebam o preconceito social implícito nessa frase, e ainda prossegue, “vocês só precisam convencer as clientes de que usando meus produtos, elas ficarão parecidas COMIGO ou a vocês” — ou seja, uma mulher negra de pele clara, com rosto bonito e desejada. Nesse momento, conseguimos perceber o desconforto de Sarah. Mesmo assim, ela persiste e propõe ser vendedora.

Addie diz: “ser vendedora não é pra você”.
Sarah como uma mulher negra de pele retinta argumenta que contratar mulheres negras de pele clara não vão auxiliar na venda, pois todos sabem que: “o cabelo delas não veio dos seus produtos, mas do estupro de suas mães”. Assim como no Brasil, o processo de clareamento da população negra nos Estados Unidos aconteceu graças ao estupro de mulheres negras.

Por que colocam como mulheres negras como rivais?
Quando Sarah conta para Addie que vendeu o produto sem sua permissão, é que percebemos a força do racismo. Addie destila seu preconceito ao dizer que Sarah, mesmo usando roupas finas, parece que saiu de uma plantação — fazendo menção aos tempos de escravização nos Estados Unidos¹.

Mas, vamos entender como tudo começou:
Quando analisamos a escala de privilégios, compreendemos que a mulher negra de pele retinta sofre mais do que a mulher negra de pele clara. Essa análise aborda o conceito do colorismo — uma prática comum em países que sofreram com a escravização. De modo simplista, o colorismo explica que a discriminação pela cor da pele também sofre influência da tonalidade, ou seja, quanto maior a pigmentação da pele, mais exclusão e discriminação uma pessoa sofrerá na sociedade. Logo, pessoas negras de pele clara têm mais permissividade na sociedade do que pessoas negras de pele retinta.

Essa ação advém do período de escravização nos Estados Unidos, no qual era reforçada a escolha do cabelo liso em relação ao cabelo crespo. Os cabelos lisos representavam vantagens econômicas e sociais ao negro (QUINTÃO, 2013). Contudo, essa ação era associada a peles negras mais claras, que poderiam caracterizá-los como livres. Como resultado houve uma hierarquização entre os escravos, no qual os de cabelo liso e tons de pele mais clara eram mais valorizados dentro do regime escravista.

Esse processo ocorreu como estratégia de enfraquecimento dos escravocratas entre os negros, e não é que deu certo. Por isso, quando Addie diz que: “Mulheres negras [de pele retinta] querem ser como eu [de pele negra clara], mesmo que saibam que é impossível” carrega o peso da diferença racial dada entre os próprios negros. Além disso, reforça um sentimento da solidão da mulher negra, aquela mulher que não é aceita, não é bela e sente-se inferior à uma mulher negra de pele clara, pois a ela é dado o sinônimo de beleza.
Ao trazer essa análise para o contexto brasileiro, percebemos que não é à toa que o termo “mulata” tenha se tornado uma expressão bonita de se dizer, pois quem não desejaria ser e ter uma mulher mestiça, que é sinônimo de beleza e pecado, não é mesmo?

Nos colocam como rivais, conforme mostra a imagem, porque o mecanismo da branquitude em permanecer com seus privilégios é esse: enfraquecer pessoas negras. Melhor ainda, se criarmos lacunas entre nós mesmos.
Se pensarmos no sinônimo de beleza “A garota Walker” desenhado por C.J, compreendemos a angústia de Sarah, até quando está alcançando um novo patamar, vive o reflexo da mulher negra de pele clara. Mas, ela prova para todos que mulheres negras de pele retinta, lábios grossos e narizes largos têm o direito de se reconhecer em produtos de beleza.



Nasce uma empreendedora

Com a negativa de Addie, Sarah resolve abrir o seu negócio. Seu desejo é fazer um produto para cabelos crespos, que seja a sua cara, que sirva para mulheres negras de pele retinta se verem como belas. O produto começa a fazer sucesso e para não ficar às sombras de Addie, Sarah se muda para Indianápolis com o sonho de aumentar seu negócio. Está decidida a montar uma fábrica e ampliar seu portfólio de produtos e expandir para todo o país. Uma empreendedora nata que não se contenta com os nãos que leva ao longo da sua trajetória para realizar seu sonhos.

O machismo do homem negro deve ser analisado considerando alguns pontos.
Sarah está empolgada em apresentar suas ideias para um grupo de investidores — homens negros importantes — da cidade. Quando termina de apresentar, todos os homens se dirigem ao seus marido. Mas, Sarah rebate que o projeto é dela, mas que o marido a auxilia. Neste instante, os investidores dizem: “agora sabemos quem veste as calças”, uma fala extremamente machista, mas que causa o descontentamento do marido C.J. Aqui, precisamos entender que o ego ferido vai além da questão de gênero, no qual muitos homens se sentem inferiores ao verem suas companheiras atingindo o sucesso, devemos adicionar a questão racial. Sarah não desiste, e tenta solicitar ajuda individual ao agente mais rico da sociedade, e ele tenta estuprá-la.

Cabe ressaltar que o estupro é um mecanismo de poder. Em muitos casos, o estuprador exerce a tentativa ou o ato de estuprar para demonstrar a vítima seu poder sobre ela. Agora, pensem, uma mulher e negra, buscando abrir seu negócio, após menos de ¼ de século do encerramento da escravização no país, e acreditando se igualar ao homem e negro? Não, isso é inconcebível. Há uma fala após essa cena que demonstra a hierarquia estabelecida simbolicamente — homens negros precisam ascender socialmente antes das mulheres negras.

Vocês lembram de quando eu comentei lá em cima do texto sobre a questão de privilégio? Essa escala também serve aqui. Um homem negro tem desvantagem em relação à um homem branco desde os tempos de escravização, além de serem espancados, mortos e maltratados pelo homem branco, em muitos casos, precisavam ver suas companheiras serem maltratadas, muitas vezes estupradas, e até criar filhos que não eram seus de sangue, tudo isso: sem falar nada. Logo, analisar a ascensão do homem negro deve levar em consideração que ele se sente inferior e castrado duplamente. Por isso, ele não consegue admitir o sucesso de uma mulher negra antes dele mesmo.

As atitudes machistas reforçam o patriarcado e sustentam a análise de que as mulheres negras, desde sempre, foram vistas como objeto de exploração — mesmo por aqueles que deveriam entender sua dor, mas que são cegados pela incessante corrida para alcançar ou tentar se equivaler ao homem branco — pacto narcísico.

Enquanto Mãe, Madam C.J Walker também passa por um dilema: aceitar a sexualidade de sua filha. Durante boa parte da série, ela não consegue admitir, mas é com a aproximação da sua morte que ela consegue respeitar quem a filha é.
A série é curta, mas em poucas cenas, consegue nos fazer entender o contexto da época, e o quanto as atitudes vivenciadas ainda se refletem na nossa sociedade. Conseguimos enxergar os marcadores sociais presentes e o quanto a força de um sonho pode nos impulsionar mesmo com todas as adversidades. Sim, vimos uma mulher negra vencer e como é bom, meus jovens.

Espero que você tenha gostado. Se curtiu, comenta aí :)

¹Os estados do Sul - onde acontece a série - foram conhecidos pela brutalidade com os negros escravizados e pela força da agricultura, tendo como destaque o plantio de algodão. Esses estados foram marcados pela mancha do sangue negro, foram resistentes em conceder a alforria para os escravizados, e ao longo da história, registram os maiores problemas com inserção de pessoas negras na sociedade, como a imposição durante a luta dos direitos civis.

REFERÊNCIAS:
QUINTÃO, Adriana Maria Penna. O que ela tem na cabeça? Um estudo sobre o cabelo como performance identitária. 2013. 196 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia) — Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.

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