Covid-19: um apartheid invisível e silencioso




A sociedade brasileira vive um apartheid invisível e silencioso: de um lado os que podem ficar em casa e se proteger da pandemia, em sua maioria pessoas brancas, e de outro lado a população que não pode evitar os riscos da covid-19, pois precisa manter os serviços essenciais da cidade, tais como fornecimento de água potável, energia elétrica, limpeza urbana, empresas de telemarketing e os entregadores de comida, entre tantos outros. E esta população trabalhadora, em sua maioria, é negra.

Em 2018, no Brasil, existiam 46.631.115 vínculos formais, sendo que os piores salários eram pagos para trabalhadores dos serviços essenciais, constituídos majoritariamente por trabalhadores negros: no telemarketing, 64,1% do total de vínculos eram negros; na limpeza urbana, 55,4%; na segurança, 52,9% e na construção civil, 50,2%, dentre tantos outros serviços[1].

A covid-19 não escolhe as pessoas por raça para tocar, porém, quando se acompanha as notícias da pandemia nos Estados Unidos e seu impacto sobre a população negra, surge total inquietação: onde estão os dados de contágio e mortalidade do Brasil? Quais territórios estão sendo impactados? O contágio não é seletivo, mas a letalidade da doença é desigual.

Ao longo de décadas, uma parcela da população, em sua maioria negros, tem experimentado uma vida sem saneamento básico, sem água potável, nas piores condições socioeconômicas e sem acesso aos serviços de saúde, colocando-a em situação de vulnerabilidade.

Nesse sentido, a letalidade por covid-19 amplia-se entre os negros, a exemplo do ocorrido nos Estados Unidos, pois incide mais entre as pessoas com comorbidades, tais como hipertensão e diabetes, dentre outras doenças que têm prevalência entre negros.

No início da pandemia do covid-19 no Brasil, o contágio atingiu os moradores dos bairros da classe média e classe alta, já que se propagou por passageiros de viagens internacionais. Nessa etapa, as mortes subiam lentamente, já que os infectados contavam com os serviços dos melhores hospitais privados que por muito tempo registraram números reduzidos ou inexistentes de mortes pelo covid-19.

Nas últimas duas semanas, as favelas e bairros periféricos, áreas compactas e densas, com residências multigeracionais, registraram os primeiros casos da doença. A partir desse momento, os números de mortalidade se ampliaram, o que não nos surpreendeu, mas nos levou a refletir sobre os dados que ainda não conhecemos no Brasil sobre a população negra.



Covid-19: um apartheid invisível e silencioso

Quem parou para observar a cor da maioria dos trabalhadores que atuam na coleta de lixo, na limpeza de sua rua, na manutenção das calçadas e asfalto? São, em sua maioria, negros. Você parou para observar? Neste sábado, 11 de abril, enquanto muitos estavam protegidos em suas casas, trabalhadores terceirizados pela Prefeitura de São Paulo faziam a substituição das calçadas na Rua da Consolação, sem máscaras e os importantes EPIs que sua profissão exige.

Sem dúvida, temos de ficar em casa. Fiquemos protegidos, mas pensando nas pessoas que garantem o privilégio de estarmos neste lugar. Eles não podem ficar à sorte: são profissionais de saúde, enfermeiros, seguranças e motoristas de aplicativos.

Eis aqui a necessidade da inclusão da informação sobre cor nos formulários de notificação compulsória e declarações de óbitos, e que estas informações sejam tabuladas e divulgadas como acontece com as tabulações por idade e sexo. Somente com estas informações poderemos ser assertivos nos caminhos para evitar os números vividos pela população estadunidense.

A invisibilidade do racismo é um dos maiores obstáculos na sua compreensão e enfrentamento – precisamos da informação sobre cor, que compõe o perfil da população, para elaborarmos políticas públicas igualitárias.
Fonte: RAIS - Relação Anual de Informações Sociais - 2018.
Ceert.

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