Andarilho do mundo', ex-rapper e professor luta por igualdade racial

Richard Santos acumula experiências em diversas áreas das ciências humanas. Carioca e morador de Porto Seguro (BA), ele leva para o restante do país, e do planeta, os conhecimentos que adquiriu em sala de aula, na tv e no movimento do hip hop, para promover transformações sociais

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"Existe um projeto de poder hegemônico que impera no Brasil há 500 anos. Aqui e na América Latina, só teremos mudança quando desenvolvermos capacidades plurais, que reflitam a formação social dos povos", aponta Richard Santos

“Estamos sós, ninguém quer ouvir a nossa voz / Cheia de razões, calibres em punho / Dificilmente um testemunho vai aparecer / E, pode crer, a verdade se omite / Pois quem garante o meu dia seguinte?” O trecho da música Pânico na Zona Sul, lançada em 1988 pelo grupo Racionais MC’s, ultrapassa barreiras temporais e marca a vida de Richard Santos. Carioca, doutor em ciências sociais, professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), escritor, comunicador e ex-cantor de rap, ele guarda habilidades diversas adquiridas ao longo de 47 anos de vida. Contudo, mesmo bem-sucedida, a trajetória não o impediu de enxergar a realidade que a canção denuncia , cenário que só quem é negro conhece de verdade .

Com uma história que passa por diferentes cidades, Richard é desbravador, ou “andarilho de mundo”, como ele mesmo define. A vida do professor se desenrolou entre cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e, atualmente, constrói-se em Porto Seguro (BA). Em cada uma delas, ele acumulou mais elementos na bagagem intelectual que carrega Brasil e mundo afora. Entre essas idas e vindas, o professor encontra a equipe do Correio no saguão de um hotel do Setor Hoteleiro Sul.

Descontraído e entusiasmado, Richard fala sobre algumas das principais etapas que viveu, mesclando memórias e referências a teorias científicas. A trajetória de Big Richard — como também é chamado — reflete a transdisciplinaridade que ele próprio buscou ao começar os estudos da graduação. Mesmo com mais de 20 anos de trabalho na comunicação, o interesse acadêmico encontrou base nas ciências sociais. “Queria entender a sociedade em que estamos inseridos”, relata. A partir dali, o caminho se pavimentou por mais etapas de estudos até chegar ao pós-doutorado, que cursa atualmente na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

No fim dos anos 1980, teve início a trajetória musical de Richard — outra das facetas do professor —, quando ainda morava no Rio de Janeiro, em meio à efervescência do rap, do reggae e mesmo cenário em que o funk carioca nascia. Dali, surgiram grupos como Planet Hemp, O Rappa, Cidade Negra e nomes como o de Gabriel, O Pensador. No entanto, a inspiração para o gosto pela música estava na capital federal: Legião Urbana. O primeiro baixista da banda, Renato Rocha — morto em 2015 —, também era negro. “Houve uma identificação estética, mas eu não me via cantando em uma banda de garagem, até porque eu não tinha garagem nem instrumentos para fazer o rock.”

O interesse pelo rap surgiu da influência da tevê e de um primo que apresentou a Richard o disco Consciência Black, dos Racionais MC’s. A música Pânico na Zona Sul chamou atenção e o levou aos palcos. Mas, com o tempo, a desilusão provocada pelo modelo do mercado vigente, que não permitia que alguns grupos tivessem o mesmo espaço no rádio e na televisão, fez com que Big Richard desistisse da vida de cantor. “Não faço mais shows. Escrevo, produzo, mas não mais para atuar na indústria cultural. Por mais que o hip hop tenha esse discurso crítico, politizado, você tem de aderir aos signos dela”, destaca.
Experiências

As pesquisas na área da comunicação surgiram apenas durante o mestrado, na Universidade de Brasília (UnB). Servidor público da UFSB, o campo de atuação do professor universitário passa pela indústria cultural, a América Latina, o sistema de tevê pública, além de questões raciais. O livro mais recente dele fala da relação entre a branquitude e a televisão. “Sempre gostei muito de comunicação e de televisão. Sempre tive curiosidade de saber mais sobre esse veículo que cria nosso imaginário. E costumo dizer que as plataformas digitais são uma adaptação dela”, define.

Olhar crítico e experiências nesse meio não lhe faltaram, uma vez que trabalhou nos principais canais privados do país e em tevês públicas, tanto à frente quanto por trás das câmeras. Atuou como figurante na novela Roque Santeiro, foi assessor de imprensa, colaborador na MTV, apresentador de quadro no Fantástico, produtor na RecordTV — onde atuou em outra novela — e na TV Brasil — onde também fez reportagens. Passou, ainda, pela Bandeirantes e pela TV da Gente.

Richard analisa que a formação comunicacional no país é rodeada por problemas estruturais que favorecem uma visão eurocêntrica, tanto em relação aos saberes quanto a posturas estéticas. “Esse conjunto, formado pelo imaginário eurocêntrico colonizador transforma o não branco no outro, no estereótipo, no subalterno. Ainda hoje, você vislumbra esse poder branco pautando e agendando temas, reportagens, perspectivas, visões. Isso é muito claro — ou muito escuro — para a gente”, comenta. “E como formam-se esses núcleos de trabalho hegemonicamente brancos? A partir da concepção branca de que os melhores representam aquilo que você vê no espelho”, completa o professor.


Transformações coletivas

A família de Richard Santos — o mais velho de um casal de filhos — é formada pela miscigenação, como é típico no Brasil: tem raízes no continente africano misturadas a portugueses e indígenas. Enquanto a mãe dele mora na Alemanha, os dois filhos, de 25 e 22 anos, vivem em São Paulo. O professor e a mulher, Maria do Carmo, também doutora e professora de direito, vivem em Porto Seguro. “(Ficar afastado dos filhos) não é uma coisa tranquila. Ficamos preocupados com meninos negros em uma cidade grande como São Paulo. Essa é uma preocupação constante das famílias negras, independentemente da idade dos filhos. Minha mãe tem a mesma preocupação comigo”, diz.

O caminho de Richard e Maria do Carmo até a Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) não foi dos mais tranquilos. Quando ainda moravam em Brasília e logo após concluírem o doutorado, o casal ficou desempregado. Eles trabalhavam em órgãos vinculados à Organização das Nações Unidas (ONU). Depois de decidirem prestar concurso, ambos passaram em primeiro lugar para o cargo de professor da instituição de ensino superior, mas ainda não haviam sido chamados. “Estávamos sem qualquer tipo de perspectiva”, comenta Richard.

Nesse intervalo de um ano e quatro meses, precisaram se sustentar com dinheiro da poupança, além de contarem com a ajuda de amigos e familiares. “Nossas conquistas são coletivas. Só conseguimos uma poupança porque houve um movimento de suporte e apoio.” Após receberem uma ligação da universidade, descobriram que, finalmente, poderiam tomar posse. “Ligaram em uma sexta-feira. Tínhamos 15 dias para ir. Na segunda-feira seguinte, às 9h, estávamos na porta da reitoria para assinar (o termo de posse). Foram 1,6 mil quilômetros até Porto Seguro, em uma estrada com assaltos. Nossos títulos, necessários para a posse, estavam em duas mochilas que levávamos embaixo do banco. Se acontecesse qualquer coisa, elas eram nosso futuro”, conta.

Fragilidade

O pesquisador avalia que as oportunidades para negros ainda são mínimas e isso impede que boa parte dessa população consiga deixar de ser alvo de desigualdades. O problema também se revela no ambiente acadêmico: “Ser professor negro em uma universidade eurocêntrica e branca, mesmo que ela se queira desconstruída, é ser cercado de desconfianças, ainda que meus colegas tenham me recebido muito bem. Mas os sujeitos que formam a instituição, em sua maioria, são brancos. Não há pluralidade na universidade. Você tem reflexos da formação social excludente, racista e branca que temos em qualquer outra universidade”, pontua.

Richard critica, ainda, a inversão da pirâmide do processo educacional. Ele observa que alunos de colégios particulares são preparados para entrar em universidades públicas, enquanto estudantes de escolas públicas pensam em meios que os permitirão ingressar em instituições particulares. O processo de mudança dessa realidade depende de transformações coletivas, enfatiza o professor. “Existe um projeto de poder hegemônico que impera no Brasil há 500 anos. Aqui e na América Latina, só teremos mudança quando desenvolvermos capacidades plurais, que reflitam a formação social dos povos”, destaca.

Em todos os lugares onde viveu, o professor observou a mesma situação da população negra, afetada por “fragilidade, subalternização e alijamento”. Por outro lado, em cidades como Porto Seguro, ele percebe um legado de luta e sobrevivência. “Se não fosse isso, teríamos a conclusão de um processo de embranquecimento e extermínio dessa população indesejada. É indesejada à esquerda, à direita, ao centro”, analisa. “Minha preocupação durante toda minha trajetória acadêmica é escrever sobre ou a partir de meu lugar. Quando entramos nesses espaços de poder, não podemos simplesmente reproduzir os saberes de conhecimentos legados por aqueles que nos subalternizaram.”
Fonte : Correio Braziliense

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