Nova Deusa do Ébano diz que já sofreu preconceito por causa do cabelo e fala de título: 'Símbolo de representatividade'



Jovem de 19 anos foi eleita por unanimidade por jurados na 39º edição da Noite da Beleza Negra, em Salvador.

Eleita a Deusa do Ébano do Ilê Aiyê, a jovem Jéssica Almeida Nascimento dos Santos, de 19 anos, ainda custa a acreditar que conseguiu realizar o que considerava como "sonho de infância". Ela conversou com o G1 e falou sobre a emoção de ter sido coroada, sobre a vida, os preconceitos que teve de enfrentar por causa da cor da pele e ainda sobre o papel de representantividade que assume a partir de agora.


"Foi muito gratificante ser eleita como deusa. Desde que passei na seletiva, foi uma coisa inacreditável para mim. Eu já me sentia uma deusa. Quando eu cheguei no palco, que eu vi o público e senti aquela energia, foi mágico. Quando os jurados anunciaram o resultado, minha reação foi agradecer toda a minha ancestralidade", destaca. A votação que elegeu Jéssica ocorreu na noite do último sábado (20), na Senzala do Barro Preto, em Salvador.


A eleição, que reúne somente mulheres negras, é realizada anualmente, para escolher uma representante da entidade afro Ilê Aiyê, primeiro bloco afro da Bahia.


Ao todo, 16 mulheres negras participaram da 39º edição da Noite da Beleza Negra, entre elas uma estrangeira: a norte-americana Sheryland Neil, de 35 anos, nascida em Atlanta, estado da Georgia, nos Estados Unidos. Além da deusa, os jurados escolheram ainda as princesas do Ilê Aiyê: Milena Sampaio Nascimento, 33 anos, e Lorena Matos dos Santos, de 20 anos.

"Agora sou um símbolo de representatividade. Vou levar o nome do Ilê Aiyê comigo, para o meu bairro, para as crianças, para todas as mulheres negras”, disse Jéssica.
Jéssica, ao centro, junto com as princesas eleitas Milena Sampaio (à esquerda) e Lorena Matos (à direita) / Foto: Odú Comunicação


Vida e relação com o Ilê

Jéssica atualmente é estudante de um curso de informática. Nasceu e cresceu no bairro do Cabula, em Salvador. Criada por uma avó, conta que conheceu o Ilê Aiyê aos 11 anos.

"Eu fui a primeira vez ver o concurso da Beleza Negra aos 11 anos, quando meu pai me levou. Lá, eu vi pela primeira vez uma mulher sendo coroada como deusa, e eu virei para o meu pai e disse que um dia também queria ser eleita para o posto. Eu sabia que tinha capacidade para alcançar o título porque o rosto dela parecia com o meu. Por isso veio uma vontade de estar naquele lugar", disse.


Após o primeito contato com o o Ilê, Jéssica disse que nunca mais quis se afastar das tradições do grupo. Somente agora, aos 19 anos, no entanto, fez sua primeira participação na seleção da Deusa do Ébano e, por unanimidade, recebeu o título emblemático.


"Desde aquela ocasião que meu pai me levou, eu passei a ir para os ensaios do Ilê, passei a sair no bloco, participo das caminhadas da consciência negra promovidas pelo grupo. E assim fui criando uma identidade", diz.

"O Ilê é referencia de resistência da comunidade negra. O Ilê representa e fala por você, seja nas músicas ou nas danças".

Preconceito

Ao longo da vida, a jovem diz já ter passado por diversas situações em que foi alvo de preconceito por conta da cor da pele.

"A gente já nasce de cara com o preconceito. Minha família sempre disse para mim que não tinha problema nenhum no fato de eu ser negra, só que a sociedade é cruel com a gente, por conta da nossa raça, da nossa ancestralidade, da nossa história. Já disseram que meu cabelo era feio, que eu não iria chegar a lugar nenhum porque sou negra, que eu não merecia ter visibilidade. Todo tipo de coisa", lamenta.
Outro episódio classificado por ela como constragedor ocorreu há três anos, quando se preparava para participar de uma seleção de modelo, aos 16 anos.

"Me inscrevi nessa seleção, para atuar com modelo, e no momento de assinar a ficha só tinha como opções as cores branca, parda e morena. Eu questionei, falei que tava faltando a opção negra, que era a minha, e mandaram que eu assinasse na morena. Disseram que era a mesma coisa, mas a gente sabe que não é. Por conta disso, desisti da selação", destacou.

Jéssica disse que não se abateu com os episódios de preconceito pelos quais passou e que tudo se transformou em experiência. "Para mim, tudo isso foi experiência. Constumo encarar assim as coisas que não são boas. Minha família, desde pequena, me ensinou a erguer a cabeça. Hoje, digo que todas as pessoas devem ter orgulho da sua raça", afirma.
"Aprendi a me valorizar e não me abater por nada. Continuo com a minha consciência e meu orgulho negro".

Representatividade

Jéssica diz que, agora, tem um papel importante: o de representar os negros, sobretudo as mulheres, na luta contra preconceitos e na busca por direitos iguais.

"A responsabilidade é muito grande. Tenho que fazer valer tudo que represento. Tenho comigo agora o papel de representar o ideal que o Ilê traz há 44 anos: a resistência contra o preconceito, contra a discriminação, contra o feminicidio, contra tudo de ruim que é praticado contra as mulheres na sociedade, sobretudo contra as mulheres negras", destaca.


Para o futuro, planeja ainda ingressar num curso de direito. "Vou concluir meu curso de informática agora e, depois, pretendo fazer Direito. Vou me programar para conciliar os estudos com a dança, que amo fazer desde os 11 anos. Quero ficar por dentro das leis para ter embasamento jurídico e lidar contra situações que violam os direitos dos negros, das mulheres e de grupos minoritários", diz.

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