A novelista em L, o Musical canta e sapateia na cara da sociedade



O teatro esporadicamente apresenta algumas produções que apenas alguns anos depois é possível compreender a sua importância histórica. E não é diferente com a produção ora em cartaz no Teatro do CCBB São Paulo, L, O Musical estrelado por Elisa Lucinda e Ellen Oléria.

A jornada da novelista Ester Rios (Elisa), após sucesso estrondoso e prestes a ir ao ar o último capítulo com um triângulo amoroso de lésbicas, é contada de forma leve, com muitas peripécias e reviravoltas, vários amores e músicas extremamente bem escolhidas.

A dramaturgia de Sérgio Maggio é consistente e investe em diferentes linguagens e mídias. Diante do certeiro repertório musical e tendo no palco a grande voz de Ellen, o texto poderia ser manco, caindo em um simples vaudeville. Além de propor a quebra da quarta parede assim que o espetáculo se inicia, a relação com assistidor é firmada imediatamente diante da humanidade das personagens.

A direção de Maggio tem um lugar de fala que valoriza a homoafetividade feminina sem cair em estereótipos, caminho quase óbvio em um percurso equivocado. Encaminha o elenco por construções de personagens sensíveis e facetados. Ellen, sem dúvida, é extremamente mais eficiente quando ocupa a função de intérprete das canções, porém sua Rute não perde fôlego diante da experiente Elisa-atriz.

Renata Celidonio (Anne), Gabriela Correa (Noiva Erina e Simone) e Tainá Baldez (Noiva L e Elle) defendem bem suas personagens. Porém, Luiza Guimarães (Xena Charme, Noiva Safo, Lea Secret e Filipa) é quem melhor se dá como curinga e, diante da sua habilidade comunicativa, brilha principalmente nas entradas de Xena e Filipa. A youtuber Xena deveria seguir carreira…

L, o Musical apresenta 22 músicas incluindo canções de Simone, Adriana Calcanhotto, Márcia Castro, Cássia Eller, Mart’nália, Isabella Taviani, Maria Gadú, Leci Brandão, Sandra de Sá, Angela Ro Ro, Marina Lima, Maria Bethânia. A direção musical é assinada por Luís Filipe de Lima e acompanham o elenco a banda composta por Alana Alberg (baixo), Marlene de Souza Lima (guitarra), Georgia Câmara (bateria) e Luísa Toller(teclado).


Algo parecido com um coreto kitsch recebe os diferentes planos na cenografia um pouco confusa de Maria Carmen de Souza. Vários elementos poderiam ser retirados e passariam desapercebidos.

O Show Opinião, de Augusto Boal, em 1964, e Ópera do Malandro, de Chico Buarque, em 1978, quando estrearam não se tinham a dimensão do seu marco na sociedade que estava inserida. L, o Musical pode(rá) ser uma dessas montagens. Além de levar ao palco um amor lésbico com protagonistas negras, diante de um país tão dividido e polarizado, exalta o valor do amor e das escolhas femininas. É um espetáculo de empoderamento, diante de um país com altos índices de feminicídio (e lesbiofobia).

Por fim, L, o Musical faz um serviço a música brasileira criando (e resgatando) um acervo com cantoras que se declararam publicamente lésbicas ou bissexuais, ou que têm uma identificação afetiva com esse público.

Não há dúvida, de que estamos diante de um espetáculo imperdível!

Clique aqui para acessar o serviço de L, o Musical.

Comentários