Único negro em sua turma, a empresa onde ele é sócio, faturou mais de R$ 1 milhão com projetos de infraestrutura

 



Luciano Machado é um dos fundadores da MMF Projetos. Empresa tem entre os clientes a Eletrobras e o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT)

Luciano Machado, 42, é o mais novo entre quatro irmãos. Em relação a eles, teve uma vantagem durante a infância: a situação financeira da família permitiu que Machado começasse a trabalhar mais tarde, com cerca de 16 anos. Seu pai foi pedreiro, servente e empreiteiro até que abriu uma pequena empresa no ramo de construção. Foi nessa área que ele e os irmãos começaram a trabalhar.

A experiência e o foco no negócio da família o motivaram a seguir carreira como engenheiro civil. Ele entrou na faculdade em 1996 e logo conseguiu um estágio em uma construtora. Nos anos seguintes, sua carreira deslanchou – mas em outras direções. Foram sete anos trabalhando nos setores administrativo e comercial do HSBC e do antigo Unibanco.

Depois, Machado decidiu retornar à área de construção civil. Chegou a trabalhar em empresas do ramo, mas seu maior desejo era empreender. Seu pai havia fechado seu negócio anos antes e ele via o próprio processo de falência como um aprendizado. Seu plano era deixar a empresa de infraestrutura onde estava para abrir um pequeno negócio voltado a construções e reformas.

No processo de saída, um convite mudou o rumo. “Outros dois executivos disseram que também queriam sair para abrir uma empresa, mas não entendiam muito da área comercial. Me convidaram para juntar forças”, diz Machado. Em 2014, a união deu origem à MMF Projetos. A sigla vem dos sobrenomes dele e dos outros dois fundadores, Ricardo Mirisola e Igor Ferreira. Hoje, a empresa também tem como sócia Fernanda Castells.

Nos últimos seis anos, eles desenvolveram projetos de infraestrutura para clientes como Arteris, Eletrobras e o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (DNIT). O faturamento de R$ 1,2 milhão registrado em 2019 foi superado em julho deste ano. Para 2020, a projeção é chegar aos R$ 3,6 milhões.

Segundo Machado, as experiências fora da área ajudaram a trilhar os rumos do negócio. “Eu lidei com empresários e vi bastante o que era o dia a dia empresarial enquanto estava nos bancos. Muitos me mostraram o que fazer e o que não fazer”, diz. Outro aspecto de sua trajetória também influenciou o modo como ele gerencia a empresa: o fato de ter sido o único negro em muitos dos espaços que frequentou.

O primeiro deles foi sua turma na graduação em Engenharia. Depois, veio o MBA. Um curso recente na área de Engenharia Geotécnica foi o primeiro a trazer uma realidade diferente. “Foi a primeira vez que me senti impactado de não ser o único. Eram nove entre 50”, diz o empreendedor. “Eu e meus irmãos sempre nos atentamos a essa questão do negro único. Foi muito positivo ver essa mudança.”

Dados do IBGE mostram que os negros são maioria (63,9%) no setor de construção civil. Por outro lado, são minoria (22%) entre os alunos dos cursos de Engenharia Civil, segundo dados do Censo da Educação Superior. “É comum ver negros na linha de frente da construção civil. É um trabalho muito importante, mas tido como menos nobre por não exigir formação mais específica”, diz Machado. Mesmo os profissionais formados, segundo ele, enfrentam barreiras como a escolha de candidatos vindos de faculdades específicas.

Entre as 15 pessoas que trabalham no escritório da MMF hoje, quatro são negras, contando com ele. “Tenho essa preocupação, mas também me preocupo com a formação”, diz. A empresa dá prioridade aos processos seletivos feitos às cegas até o momento da entrevista – e busca valorizar profissionais sob aspectos diferentes.

“Já recebemos um candidato que falava quatro idiomas e já foi para fora. Outro tinha ido para a Avenida Paulista pela primeira vez. Me chamou atenção que os dois chegaram ali na mesma situação”, diz o empreendedor. O segundo foi o escolhido para a vaga. “Quando você contrata alguém que viveu em comunidade e passou a vida se ajudando, a empresa acaba absorvendo esse trabalho em conjunto.”

Fonte: Empresas &Negócios

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