Modelo negro é alvo de racismo após publicação de fotos em campanha de shopping na internet

 


Dalligton Person, de 28 anos, posou com roupas de lojas do centro de compras. RioMar, no Recife, disse que "não compactua com qualquer ato de racismo".

Um modelo negro foi alvo de racismo nas redes sociais, depois de ter fotos publicadas no perfil do Shopping RioMar, na Zona Sul do Recife. Aluno de licenciatura em teatro na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Dalligton Person, de 28 anos, sofreu os ataques nos comentários das imagens postadas pelo centro de compras. O shopping afirmou, em rede social, que “não compactua com qualquer ato de racismo”.

Nas imagens publicadas na rede social, na terça (22), Dalligton usava roupas para a promoção de lojas do shopping. Um homem comentou: “quando vocês vão colocar um modelo normal?”




Depois, a mesma pessoa escreveu que Dallington estava mais para “modelo do Aníbal Bruno”, referindo-se ao antigo presídio onde hoje funciona o Complexo Prisional do Curado, Zona Oeste do Recife.

“Assim que percebi o comentário, imediatamente, me veio à cabeça: agora é comigo. Me sinto engajado dentro do movimento negro e acompanho bastante casos parecidos. Eu entendo que a gente mora num país racista e que as pessoas são educadas pra agir dessa forma. O caso tomou proporções enormes muito rápido”, afirmou o modelo.

O modelo afirmou que, de imediato, entrou em contato com o shopping, mas não obteve apoio rapidamente. “Imediatamente, entrei em contato com o shopping, pedindo providências, porque é a minha imagem, uma exposição grande. E o shopping não me deu auxílio, de imediato”, disse.

“Me senti constrangido, lesado, sozinho. E recebi ajuda de muitos amigos e apoio moral de muitas outras pessoas que eu não conheço. Assim que eu percebi os comentários racistas, um amigo, que também é um homem negro, foi tirar satisfações e os comentários para ele foram os mesmos. E ele também vai registrar queixa”, afirmou.

Dalligton Person afirmou que prestaria queixa sobre o caso ao Ministério Público de Pernambuco (MPPE), nesta sexta-feira (25). O G1 entrou em contato com o MPPE a não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.

O modelo disse que o shopping RioMar entrou em contato com ele e ofereceu ajuda jurídica. Na segunda-feira (28), o rapaz disse que vai prestar uma queixa na Delegacia de Crimes Cibernéticos do Recife.


“Eu sou um homem negro. Sofrer racismo no Brasil é inerente. A maioria das pessoas de pele preta no Brasil em algum momento sofre isso, porque esse comportamento é naturalizado. Mas dessa maneira, com essa gravidade é a primeira vez”, declarou.


Repercussão

Os ataques contra o modelo Dalligton Person geraram comoção nas redes sociais. As pessoas começaram a comentar na publicação e em suas redes sociais cobrando um posicionamento do centro de compras. Entre eles, os atores Bruno Gagliasso e Érico Brás.

“Diante do comentário, gostaria de saber a posição do @riomar_recife. Deve ser um desses racistas que mal sabem do tamanho da própria ignorância, mas repete o ato que vê por aí com frequência. Mas a questão é: como podemos garantir que o @riomar_recife não seja afetado e por consequência mude o caminho para a diversidade que começou com tanto primor? Como silenciar os ignorantes? Quero propor uma ação por racismo e para o @riomar_recife algo maior que essa capa”, disse Érico Brás.

Nota


Após a repercussão, o RioMar emitiu uma nota, publicada na mesma rede social, dizendo que “não compactua com qualquer ato de racismo”.

“Em todas as nossas ações, procuramos espelhar a diversidade da nossa sociedade. E não achamos que isso é um diferencial. Isso é o certo! É o único caminho que uma sociedade sabia deve percorrer. Mas não somos responsáveis pelo posicionamento de terceiros. Um recente post com um modelo foi alvo de racismo. Nos solidarizamos com a vítima. Sobre tal fato, o setor jurídico já foi acionado. Seguimos acreditando nas pessoas, na igualdade e desejando um tempo com oportunidades iguais para todos, sem qualquer distinção”, disse o shopping.

OAB

Diante do caso de racismo pela internet contra o modelo negro, a presidente da Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE), Manoela Alves, afirmou ao G1 que as frases postadas têm conteúdo pejorativo e de cunho racista.

Para Alves, professora de direito constitucional, o caso pode ser interpretado como injúria racial, pois teve um direcionamento específico a uma pessoa.

“É um crime imprescritível e inafiançável”, declarou. Manoela Alves lamenta que as redes sociais abram espaço para comentários desse tipo. “Perece que virou terra de ninguém” declarou.

Segundo a advogada, os responsáveis pelas frases devem ser penalizados. “Mesmo que eles tirem os comentários, devem ser identificados pela polícia, por meio de rastreamento dos computadores, e sofrer punições nas esfera penal e cível, com uma ação por danos morais”, acrescentou.

Fonte : G1

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