Sem mídia periférica, efeitos do coronavírus na realidade dos negros e pobres não seriam denunciados



Nos principais telejornais brasileiros, tenho visto com exaustão como a pandemia do Covid-19, o novo coronavírus, alterou a rotina do grandes centros urbanos como São Paulo. Regiões, como a da Avenida Paulista, mais vazias, o trânsito completamente livre. E das varandas dos prédios, as pessoas contam como têm feito para realizar compras sem sair de casa.


Da ponte para cá, a mídia homogênea também mostra, em segundo plano, como os pequenos empreendedores estão se virando e como as pessoas que não têm o privilégio do home office se expõem ao vírus ao dependerem do transporte público, que continua lotado devido à redução das frotas de ônibus, ao menos, pela metade.

São reportagens feitas por bons profissionais, mas que, muitas vezes, desconhecem a realidade das periferias. Diferentemente acontece com a mídia periférica, onde os jornalistas são os próprios moradores, ou seja, o conteúdo criado por eles também se enquadra na sua própria vivência ou na de seus amigos e familiares.

É a mídia periférica que busca primordialmente informar os impactos da crise provocada pelo Covid-19 sobre a população negra e pobre, que antes mesmo de o país registrar os primeiros casos da doença já se encontrava em um cenário de vulnerabilidade provocado por condições precárias de trabalho, falta de saneamento básico, dificuldade de acesso à saúde e alimentação adequada.

Como o isolamento social pode ser praticado entre famílias que vivem em apenas um cômodo? Como os trabalhadores sem carteira assinada vão conseguir pagar suas contas? Como as pessoas podem cuidar da higiene sem acesso ao álcool em gel? Perguntas como essas são o norte de jornalistas e comunicadores das periferias que se articularam para fazer uma cobertura de impacto social.

O caso da empregada doméstica de 63 anos que faleceu no dia 19 de março após contrair o novo coronavírus na casa da patroa que havia retornado de uma viagem da Itália ainda é emblemático. Mesmo no grupo de risco e com doença pré-existente, a funcionária foi exposta aos riscos do contágio da doença ao continuar trabalhando e o desfecho não poderia ser diferente.

No mesmo dia, o Periferia em Movimento publicou um manifesto assinado por filhas e filhos de empregados domésticos e diaristas para pedir medidas de proteção a esses trabalhadores e suas famílias. A carta exigia dispensa remunerada para o cumprimento do isolamento social e adiantamento das férias para não colocar em situação de risco aqueles que moram no mesmo local de trabalho.

Isso não pareceu nos veículos da chamada grande imprensa. Por que será? Mostrar as nossas fraquezas é rotineiro na mídia tradicional. Mas e quando estes filhos e filhas se levantam, mostrando a força que quem está do outro lado da ponte tem, isso cai no esquecimento.

Vivenciar e reportar no jornalismo é uma tarefa bem complicada. Mas mesmo assim temos muita gente neste front. Além do Periferia em Movimento, não deixem de ler Desenrola e Não me Enrola, Agência Mural, Nós, mulheres da Periferia; além do Alma Preta, claro.

Aliás, o coletivo Desenrola e Não Me Enrola, conversou com trabalhadoras e mães das periferias das zonas sul e leste de São Paulo para compreender como elas têm feito para se dividir entre o trabalho e os cuidados com os filhos em meio à pandemia. Ainda no universo do trabalho, o Alma Preta produziu uma reportagem sobre como a renda mínima de R$ 600 pode aliviar o trabalhador negro e pobre, mas é insuficiente para lidar com os impactos do coronavírus.

A cobertura do Alma Preta sobre o Covid-19 também traz entre suas reportagens a minha conversa com o médico Maicon Nunes, fundador e membro da direção executiva do Instituto Equânime Afro Brasil, voltado para saúde da comunidade negra. Nela, é explicada como a prevalência de doenças respiratórias como tuberculose e a falta de acesso à higiene e a serviços de saúde são problemas que fazem da população em situação de rua, majoritariamente negra, o grupo mais vulnerável ao Covid-19.

São tempos difíceis. Agora no início de abril, as secretarias estaduais de saúde já registraram mais de oito mil casos do novo coronavírus, com 335 mortes. Como o poder público pretende lidar com as próximas mortes já virou manchete internacional no The Washington Post. A capa do jornal norte-americano da quinta-feira (2) estampou covas abertas, rasas, bem próximas umas das outras em um cemitério da Vila Formosa, na zona leste da capital paulistana.

Certamente, os corpos que serão destinados a elas devem marcar um novo momento na cobertura da mídia periférica sobre o coronavírus, o que a gente já chama pelo verdadeiro nome há bastante tempo: genocídio.
Fonte : Yahoo Noticias 

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