‘Democracia baseada na supremacia branca?’. Em SP, Angela Davis não vê liberdade sem mulheres negras




As dependências do Sesc Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, estavam tomadas por uma imensidão de pessoas. A massa era comandada por mulheres com seus diferentes tons de negra. Uma paleta de cores dividia espaço com camisetas ostentando falas e rostos de símbolos da luta pela libertação da população negra.

Afinal, não é todo o dia que se tem a oportunidade de ver e ouvir Angela Davis. A intelectual e ativista norte-americana era convidada de honra para o encerramento do seminário internacional ‘Democracia em Colapso’, promovido




Angela Davis destacou lutas de Marielle e Franco e Preta Ferreira / Foto: Tabada Benedicto

O Brasil é familiar para esta senhora alta e de cabelos crespos acinzentados, que lança no país sua autobiografia. A professora emérita do departamento de estudos feministas da Universidade da Califórnia esteve em Salvador (BA), São Luís (MA) e Goiânia (GO). Angela, porém, estreava diante do público da maior cidade do país.

A escritora de 75 anos não perdeu tempo, questionou a democracia e advertiu – citando Marielle Franco, Preta Ferreira, Carolina Maria de Jesus, Luiza Bairros e Lélia Gonzalez para dizer que não existe sociedade sem a liberação das mulheres negras.

Interrompida constantemente pelos aplausos de um público empolgado e encantado com o sopro de esperança, Angela Davis demonstrou conhecimento da realidade brasileira e revelou desapontamento com a mudança de rumo provocada pela ebulição política que abriu espaço para o avanço da agenda conservadora no país.

A democracia está sob ataque. Eu estou particularmente comovida pelos debates realizados aqui no Brasil. Especialmente quando lembro que não há muito tempo as pessoas olhavam para este país como um traço de esperança. O Brasil não ia apenas nos mostrar o caminho para a justiça econômica, mas ajudaria, finalmente, na compreensão da importância da representatividade racial. O Brasil demonstraria para o mundo como gerenciar, genuinamente, um processo que caminhe na direção da igualdade. Igualdade de raça e gênero.

Embora chateada com a nova realidade social brasileira, Angela Davis parece não ter perdido esperança no futuro. Quer dizer, a feminista negra, que citou a ‘Marcha da Mulheres Negras’ de 2017, condicionou o alcance do pote de ouro com o reconhecimento das mulheres negras como fundamentais para banir o racismo que estrutura a sociedade há séculos.

“O Brasil era nossa esperança, pois esse caminho para o futuro emerge por causa das mulheres negras, que redefiniram a democracia com suas demandas políticas, econômicas e sociais. A reverberação da Marcha das Mulheres Negras de 2015, vocês se lembram? O significado da Marcha das Mulheres Negras contra o racismo, violência e em favor do bem-estar foi sentido no mundo todo”.

‘Marielle sabia que a liberdade é uma luta constante’

Não foram poucas as vezes em que Angela Davis citou Marielle Franco. Com passagem marcada para a primeira visita ao Rio de Janeiro, a norte-americana destacou a sede de liberdade da vereadora morta a tiros no centro da capital fluminense.

Quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro, Marielle Franco teve a vida abreviada em crime considerado um recado de braços clandestinos do Estado contra a diversidade. Assim como Angela Davis, a cria da favela da Maré sabia que a liberdade não se daria sem a emancipação do povo preto, sobretudo de mulheres negras.

“Quando falei na Universidade Federal da Bahia no verão de 2017, durante o Julho das Pretas, me lembro de uma mulher negra presente. Posso sentir a energia que saía de sua demandas por mudança. Também me recordo de nossa irmã Marielle Franco, assassinada no Rio de Janeiro. Estive em um congresso de mulheres negras em Goiânia depois das eleições do ano passado. Mesmo com o luto das pessoas pela morte de Marielle Franco e a indignação com o golpe contra Dilma Rousseff e a prisão de Lula, as pessoas estavam expressando a determinação para seguir na luta por liberdade”.

Angela seguiu exaltando o legado da vereadora, “Marielle vive e permanece como esperança para pessoas que acreditam, assim como ela, na possibilidade iminente de transformação racial no Brasil e nas Américas. Marielle não acreditava que o racismo seria algo permanente na sociedade humana. Mesmo com um legado de 500 anos”.

A crença de Marielle Franco na liberdade permeou o diagnóstico contundente de Angela Davis sobre os conceitos de democracia. Talvez inspirada por outra intelectual negra brasileira, Sueli Carneiro, que disse certa vez que “entre esquerda e direita, continuo sendo preta”, a filósofa que manteve relações próximas com os Panteras Negras jogou no ar reflexões importantes sobre um regime dito justo, mas que permite desigualdades, genocídios e crimes contra a humanidade como a escravidão.

“A democracia é mais complicada do que o processo eleitoral que nos permite selecionar representantes políticos. Historicamente, experienciamos democracias que atuam ativamente pela exclusão, que coexistiram com a escravidão, colonialismo, genocídio indígena. Coexistiram ao lado da supremacia branca. São democracias que invisibilizam indígenas. O que estou dizendo? Isso não contradiz ou cancela a noção de democracia? Quem ouviu falar sobre um regime democrático baseado na exclusão de pessoas que devem ser protegidas pela própria democracia? Uma democracia baseada na supremacia branca?”, provoca.

Defensora do socialismo e ex-integrante do Partido Comunista dos Estados Unidos, Angela Davis sentiu na pele as contradições do regime democrático. Na década de 1970, a filósofa chegou a ser incluída na lista das pessoas mais procuradas pelo FBI. Comandada pelo controverso J. Edgar Hoover, a polícia federal dos Estados Unidos perseguiu e prendeu a ativista.

Ao defender três prisioneiros negros, a então jovem na casa dos 20 e poucos anos foi acusada de organizar uma tentativa de fuga e sequestro que levou à morte de um juiz e quatro detentos.

O julgamento de Angela Davis durou 18 meses e se tornou um marco sobre o racismo que pauta o sistema judiciário. No Brasil também. Ainda pensando sobre a ambiguidade da democracia, assim como Angela Davis, Preta Ferreira teve a liberdade confiscada por defender condições melhores para pessoas marginalizadas pelo Estado.

“Preta Ferreira foi liberada recentemente, não é mesmo? Isso é uma vitória. Temos que celebrar nossas vitórias. Ela diz, abro aspas, ‘que o processo me ensinou como uma mulher negra e ativista é que não posso parar. Eu tenho que seguir. Não é só libere Preta. É libertem as pretas’”, lembrou Angela.

Davis usou a trajetória de Preta Ferreira – presa por 108 dias por um crime que não cometeu – para deixar explícita a inviabilidade de uma sociedade igualitária sem a inclusão dos negros, principalmente de mulheres negras.

Gritar pela liberdade das mulheres negras é dizer que queremos liberdade para todos. Considerarmos as dificuldades enfrentadas por mulheres negras por todo o hemisfério é concluir que não há democracia sem a participação das mulheres negras. Quando as mulheres negras se movem pela liberdade, elas representam todas as comunidades negras, indígenas, pobres. Todas as comunidades que sofreram exploração econômica, opressão de gênero e violência racial.

Portanto, a ativista não pareceu se incomodar com a constante associação entre mulheres negras e raiva. Respondendo a uma das perguntas da plateia em debate mediado pela jornalista Adriana Ferreira da Silva, ela reconheceu a importância da raiva.

“Qual o problema da raiva?”, questionou sobre a insistência de manter pessoas negras como atores passivos.

“Tenho problemas com a raiva quando é mal direcionada, mas a raiva, quando é bem direcionada, nos ajuda a progredir. Mulheres negras têm a reputação de serem raivosas e isso é bom”.


Angela baseou o discurso no tema central do seminário. Sem citar o nome do presidente dos Estados Unidos, que segundo ela “em algumas culturas acredita-se que nomear traz energias negativas”, a norte-americana apontou Donald Trump e Jair Bolsonaro como entusiastas da supressão de direitos.

“O presidente dos Estados Unidos sonha em voltar para um passado anterior aos direitos civis, um passado de estupro, violência. Ele quer anular nossas vitórias pela justiça social”.

Já sobre Bolsonaro, “o presidente daqui [Brasil] parece se identificar com ditaduras militares. Estou errada? Ditaduras militares e um Estado policial. Ele quer retornar para um passado onde os direitos das pessoas negras, indígenas e mulheres não eram respeitados”.

Davis foi bastante crítica sobre as contribuições dos Estados Unidos para o resto do planeta. Ela destacou o encarceramento em massa como “maior presente da democracia dos EUA para o mundo”.
Angela Davis ao lado de Lélia Gonzalez, nos EUA / Foto: Reprodução

Ela classificou as prisões como consequências do liberalismo e um regime democrático capitalista. “Os sujeitos da democracia capitalista sabem que são livres porque não estão presos. Como as pessoas sabiam que eram livres na época da escravidão? Eu sei que sou livre porque não sou escravo”.

Dona de trajetória pautada pela liberdade, Angela Davis se incomoda com rótulos como ‘ícone feminista’ ou em ser tratada como referência na luta de mulheres negras. A filósofa prefere dividir os louros com outras manas, como a Lélia Gonzalez, citada nominalmente por ela.

“Se houvesse um país para representar todos os povos da região seria o Brasil. Não os Estados Unidos. Disse muitas vezes que teria orgulho de me definir americana se o termo implicasse em relações igualitárias entre pessoas do hemisfério. Marielle Franco seria, então, minha irmã e camarada americana”.

O debute de Angela Davis em São Paulo deixa rastro de realismo – o sistema capitalista não se sustenta mais – e esperança por reforçar o que muitos setores, inclusive progressistas, não entendem, a luta por liberdade passa pela garantia dos direitos civis do povo negro.

“Quando a mulher negra emerge, o mundo emerge conosco. Essa é uma lição sobre a luta por democracia. O regime democrático que exclui uma pessoa negra não pode ser considerado uma democracia. Se quer saber o segredo da luta por democracia contra o establishment, olhe os movimentos de mulheres negras, os apoie, se junte. Se fizer isso, vai se colcoar ao lado da base que pretende mudar o mundo”.
Fonte : Hypeness

Comentários