“Estar sozinha não é estar infeliz”, defende Rebouças


#NãoEstouSó é o título do projeto de criação da artista visual Larissa Rebouças. O objetivo é criar peças que dialoguem com a comunidade e chamar a atenção para a questão do tabu envolvendo a solidão da mulher negra no cenário artístico

Por GIOVANNA HEMERLY*, do Ciência e Cultura





Foi com o objetivo de levantar a discussão sobre a solidão da mulher negra no cenário artístico e musical soteropolitano que a artista visual e formanda no Bacharelado Interdisciplinar de Artes da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Larissa Rebouças, decidiu criar o projeto #NãoEstouSó, que envolve o lançamento de um Extended play (EP) com músicas de Hip Hop/Trap, com influências no samba e outros gêneros regionais, além de ilustrações temáticas e diálogos com a comunidade, tanto na internet, quanto em rodas de conversa.

O projeto, que ganhou força a partir de uma campanha de financiamento coletivo na internet, não busca apenas discutir a situação de vítima da mulher negra diante de uma construção social discriminatória, mas também de incentivá-las a conseguir se libertar dessa construção imposta pela sociedade. “A minha proposta é falar sobre isso [a solidão da mulher negra] com uma postura de enfrentamento, porque basicamente estar sozinha não é estar infeliz”, explica Rebouças.

Segundo a artista, diante da construção social que impõe que a felicidade só é alcançada estando em um relacionamento afetivo, diversas mulheres deixam de atingir sua plenitude por não conseguir estar em um relacionamento a dois. “Tem aquela música ‘é impossível ser feliz sozinho’, a galera sustenta isso, a galera acredita que para uma pessoa ser feliz, plena, ela tem que estar com um par. E isso não é verdade. A solidão soa como um monstro, uma coisa que ninguém quer, que ninguém suportaria. Por que? Se toda felicidade do mundo que você pode conseguir para você, você pode conseguir sozinho. Você não precisa de outra pessoa para te socorrer”.

Apesar da infelicidade, atribuída à falta de um relacionamento, atingir a todos, é a mulher negra a principal vítima. O censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, ao avaliar a relação entre união estável, raça e gênero, comprovou que 52,52% das mulheres negras não encontravam-se em união, independentemente do estado civil. Os resultados do censo corroboram com pesquisas que vêm sendo feitas no campo das Ciências Sociais.
Ilustração de Larissa Rebouças

Estudos sobre a solidão – Em sua tese, defendida em 2008, Branca para casar, mulata para f… e negra para trabalhar, publicada como livro em 2013, Mulher Negra: Afetividade e Solidão, a cientista social, Ana Cláudia Lemos Pacheco, entrevistou mulheres negras ativistas e não-ativistas e concluiu que as relações de gênero, raça e classe permeiavam seus relacionamentos afetivos.

Em suas conclusões, Pacheco percebeu como os estereótipos da mulher negra como um ser servil e erotizado, seja na imagem da trabalhadora doméstica ou da ‘mulata exportação’, sustentavam um discurso originado no período escravocrata, de que essas mulheres não eram passíveis de serem amadas. “A mulher negra e mestiça estariam fora do ‘mercado afetivo’ e naturalizada no ‘mercado do sexo’, da erotização, do trabalho doméstico, feminilizado e ‘escravizado’. Em contraposição, as mulheres brancas seriam, nessas elaborações, pertencentes ‘à cultura do afetivo’, do casamento, da união estável”.

Contudo, a pesquisadora aponta também que a condição de solitude da mulher negra não acontece somente quando esta não está numa união estável, já que o discurso de que a mulher negra não é passível de ser amada atinge também os relacionamentos afetivos. Desta forma, o sentimento de não ser amada, somado aos abusos sofridos, leva estas mulheres a se sentirem sós, mesmo estando em união. Sendo assim, a pesquisadora entende que, em muitos casos, a solidão voluntária surge como uma forma de findar uma situação de sofrimento e abusos. “A solidão foi lida, na maioria das vezes, por essas mulheres, como um signo de libertação e não de submissão como quer o “feminismo” descontextualizado, que insiste em negar as diversas experiências (sociais e afetivas) dos sujeitos e de seus corpos, que nem sempre são “brancos de classe média e heterossexual”, afirma.

Na companhia de si mesma – Larissa Rebouças conta que enquanto dava vida ao projeto, o isolamento, não só no campo afetivo, mas até em relações de amizade, foi tornando-se cada vez maior. “No momento em que eu comecei a fazer as músicas, quando eu comecei a construir o projeto, eu encarei essa questão da solidão da mulher negra de uma forma real, não só a questão da solidão de forma afetiva”.

Esse isolamento foi essencial para que a artista pudesse descobrir-se e aprender a se amar e, assim, perceber como é possível lidar de fato com a solidão. “Quando eu me fechei, eu tive que aprender a gostar de mim, só da minha companhia. Eu sou a única pessoa que vai entender plenamente as minhas próprias piadas, eu sou a única pessoa que vai saber me confortar. Então eu aprendi primeiro a lidar com a solidão e depois eu tive que sair disso porque isso virou uma zona de conforto, eu tive que sair dessa zona de conforto e começar a divulgar o projeto”, desabafa Rebouças.
Ilustração de Larissa Rebouças


Apesar da importância em dar destaque ao assunto, Larissa Rebouças alerta que o tema ainda é tido como um tabu social, dificultando assim que outras mulheres negras também possam aprender a superar o sentimento de solidão. “O tema da solidão, de um modo geral, é um tabu sim. Quando eu comecei a fazer o financiamento coletivo eu percebi pessoas dizendo ‘a solidão da mulher negra é uma coisa que a gente não tem que discutir’. Como se a gente parar de reclamar, para de existir. Só que não é assim. A gente tem que falar sobre isso”, afirma.

Visibilidade à causa – Larissa Rebouças, através do projeto está se lançando no cenário do Hip Hop soteropolitano com o seu primeiro EP Sinais de Fogo, atenta para a necessidade de ampliar o debate da situação da mulher negra, que por enquanto está mais restrito aos espaços mais alternativos da cena artística e musical. “Eu vejo a galera discutindo muito sobre a solidão da mulher negra nos espaços de rap, de rap feminista negro, eu vejo isso acontecer na rua, mas isso não sai da rua, fica no underground mesmo”.

“A solidão da mulher negra tem uma relação direta com a questão da invisibilidade, elas se alimentam. Mas uma coisa a gente pode superar, que é a questão de que ser feliz sozinho é perfeitamente possível, mas a invisibilidade não, porque a gente não tem que aceitar a invisibilidade”, desabafa a artista, que pretende seguir firme com o projeto e sua divulgação como forma de levantar voz contra a invisibilidade social. “A gente tem que começar a melhorar nossa autoestima sozinhas, mas a gente tem que se pronunciar mais, a gente não pode perder a nossa voz por conta disso”, finaliza.

A artista também terá a oportunidade de se pronunciar a respeito do tema através da Roda de Conversa – Solidão e autoestima da mulher negra, que acontecerá no dia 23/03 (sábado), no Sopro de Iemanja Hostel Cultural, no bairro Dois de Julho. O evento, organizado pelo projeto Águas de Março, que tem promovido encontros durante todo mês de março sobre questões pertinentes ao universo feminino.

Referências:

PACHECO, Ana Cláudia Lemos. Branca para casar, mulata para f… e negra para trabalhar, 2008.

PACHECO, Ana Cláudia Lemos. Mulher negra: afetividade e solidão, EDUFBA, 2013.

*Estudante do curso de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e repórter na Agência de Notícias em CT&I – Ciência e Cultura UFBA

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