Regina King em ‘Se a Rua Beale Falasse’ e a força do cabelo da mulher negra





Indicada para o Globo de Ouro, a atriz fala de aprender com Barry Jenkins, vulnerabilidade na tela e uma cena marcante sobre a política do cabelo.

Sharon olha diretamente para a câmera, diretamente para a gente. Solenemente, ela coloca uma touca marrom na cabeça, certificando-se de que o rabo de cavalo está bem preso. Aí ela pega a peruca, segura nas mãos por um instante, e coloca na cabeça. Ela ajeita, mexe aqui e ali, olha para a frente. Finalmente, suspira e, frustrada, tira a peruca, contemplando o peso do que tem de fazer.

A cena se passa no filme mais recente de Barry Jenkins, "Se a Rua Beale Falasse". Ela dura apenas alguns minutos, sem diálogo nenhum. Mas é um dos momentos mais importantes do filme – e uma das melhores performances do ano, por parte de Regina King.

"Essa é sua armadura, sua fantasia", explica King sobre a peruca. "Não é que a gente [mulheres negras] não tenha cabelo. Não estamos usando peruca porque não temos cabelo. É que ... é assim que eu quero que você me receba. Estou cuidando dos negócios."

King vem cuidando dos negócios há 30 anos, com performances estelares em "Jerry Maguire", "The Boondocks" e "American Crime". A essa altura de sua premiada carreira, ela já tem status lendário, mas diz que escolheu fazer "Se a Rua Beale Falasse" (baseado no livro de mesmo nome de James Baldwin) como uma oportunidade de aprender com Jenkins, cujo "Moonlight: Sob a Luz do Luar" ganhou o Oscar de melhor filme em 2017.

"Rua Beale" já tem várias indicações, incluindo a de Melhor Filme, Drama, no Globo de Ouro. King também foi indicada para o prêmio de melhor atriz coadjuvante pelo papel de Sharon, mãe de uma mulher (interpretada por KiKi Layne) que tenta provar que seu noivo (interpretado por Stephen James) não é culpado de uma acusação de estupro.

Conversei com King sobre a experiência no set de Jenkins, como ela se sente vulnerável sendo atriz em Hollywood e a força da política do cabelo.

HuffPost: Queria começar dando os parabéns pelo filme. O New York Film Critics Circle acaba de te dar o prêmio de melhor atriz, o que deve ser empolgante. Que tal ver essa performance sendo reconhecida?

Regina King: Acho que a gente tem de assistir esse filme. E quando digo "a gente", estou falando de nós, a raça humana. Sei o quanto o amor e a família são importantes ao longo da história, e [o filme] é um lindo retrato disso.

E aí temos de pensar em ser negro nos Estados Unidos, e tudo o que conquistamos, apesar de tantas dificuldades. Até hoje, 45 anos depois [da publicação do romance de Baldwin], estamos falando da mesma coisa. Mas ainda conseguimos sorrir. Ainda conseguimos dar risada. Ainda conseguimos elogiar. E isso é um exemplo de por que estamos falando de um lindo tributo.

Você conhecia o livro antes de fazer o filme?

Só li depois de ler o roteiro, alguns dias depois. Obviamente conheço James Baldwin, mas não tinha lido Rua Beale. Barry fez um trabalho incrível. Não acho que tenha ficado muita coisa de fora no roteiro. Provavelmente as pessoas terão suas próprias opiniões, mas não penso assim sobre um roteiro desde "A Cor Púrpura". Lembro de ir ao cinema [para assistir "A Cor Púrpura"] pensando, tipo, "vamos ver o que fizeram". E lembro [de sair do cinema chorando]. Ai meu Deus. Sim! E é a primeira vez que tenho a mesma sensação.

Engraçado, porque Jenkins toma algumas liberdades no filme, mas são as liberdades certas.

Exato. Exato. Acho que é porque Barry é tão, tão consciente, e ele é um artista muito sintonizado com o que está acontecendo, o tempo todo.

Barry provavelmente não diria que dita tendências, mas eu acho que sim. Ele está sempre lendo e a par do que importa no mundo e na cultura. É por isso que acho que ele sabe que liberdades ele pode tomar. Quais terão mais eco junto ao público.

Recentemente você mencionou que parte do que te fez aceitar o papel foi a sensação de que aprenderia algo com Jenkins. O que você aprendeu?

De novo, a ouvir. Estar mais sintonizada com o que acontece além do meu círculo, da minha bolha. Acho que nós humanos estamos condicionados a estar [na nossa bolha]. Muita gente fala disso, que a comunidade do entretenimento é assim. Não, todas as comunidades são assim. É uma das coisas que aprendi com ele. Também a capacidade de passar informação ao mesmo tempo que se recebe informação.

O que isso significa?

Muitas vezes você está conversando com alguém – ou então trabalhando em alguma coisa com outra pessoa --, e quando você dá uma opinião, os outros logo vêm com as suas próprias opiniões? Todo mundo é culpado disso. Ele consegue pegar a opinião que você deu, dar para você a ideia original dele e aplicar o que você disse e como isso mudou os pensamentos dele... Ele faz isso de forma natural. Muito rápido.

Ele sabe muito, mas não te dá a sensação de "sou mais inteligente que você" ou "pois é, você nunca fez isso, então..." Ele nunca faz isso. Para alguém na posição dele, é um lado maravilhoso da personalidade.

Por que isso é importante para você como atriz?

Porque me sinto segura para expressar desconforto quando estou vulnerável. Porque é isso que é ser atriz – permitir que a vulnerabilidade tome as rédeas. Se o criador criou um espaço em que você pode [ser vulnerável], a performance vai florescer.

É importante porque, quando você se sente insegura, ele se expressa e passa as informações de um jeito que te faz esquecer das inseguranças. Você diz: "Não queria fazer isso por causa disso e daquilo outro, me ajuda?" E é importantíssimo que os atores se sintam seguros. Porque a maior parte do tempo nos sentimos sozinhos. Tipo, somos só nós que estamos pelados. Eu sou a única de calcinha. Talvez você deva conversar com KiKi [Layne] sobre isso, porque [ela e Stephen James] fizeram cenas de amor. Mas eles pareciam tão à vontade. Acho que tudo começou com Barry.

Falamos do que você aprendeu com Barry, mas também me pergunto o que você ensinou a Layne – se é que ensinou alguma coisa. É tudo novidade para ela, e você é uma lenda.

Acho melhor perguntar para ela. [Risos.] Não sei. Sempre fui sincera com ela, com as dúvidas que ela tinha. Sempre dei apoio. É claro que em alguns momentos Teyonah [Parris] e eu éramos meio que irmã mais velha/mãe, como se realmente vivêssemos aqueles papeis. Mas acho que, acima de tudo, é questão de dar exemplo. Ela é muito jovem e tem muita ambição, mas de ser uma ótima artista, não celebridade. E isso é bem único.

Tivemos sorte nesse sentido, e acho que ela também teve sorte de ter um Colman [Domingo] e uma Regina e um Michael [Beach]. Atores fortes à sua volta – e atores que se comportam direito. Isso é o mais importante.

É interessante que você fale dessa vulnerabilidade e de lidar com inseguranças, porque uma das cenas mais fortes do filme é quando você vai a Porto Rico e está olhando para a câmera, contemplando a ideia de procurar a menina que fez a acusação falsa de estupro contra Fonny [o papel de James]. Tipo, não tem filtro. Vemos que você está considerando o peso do que tem de fazer. Você pode falar do processo, como foi filmar aquela cena?

Bem, eu não sabia que teria de olhar para a câmera até chegar ao set. Barry não te prepara para isso, o que acho que é bom, porque aprendi a lidar com esse desconforto. Mas, no livro, ela está colocando um xale, que ela tira e põe e tira. E perguntei para Barry o que ele achava se fosse uma peruca.

Então a ideia foi sua. Ia perguntar, porque acho que mulheres negras e cabelo – tem tanta coisa envolvida. Dá para dizer tanta coisa com tão pouco, e acho que foi isso que aconteceu nessa cena. Como você ajeitando a peruca. Por que você sugeriu a peruca na cena?

Mulheres negras e cabelo. E minha avó. Mesmo pensando em atores, atrizes, mulheres brancas e suas perucas – é sua armadura, sua fantasia. A avó tinha a peruca que ela usava quando ia cuidar dos negócios, a peruca que ela usava quando ia para um bar, um clube, o que for. Tinha essa ideia, falei para o Barry. Ele curtiu, e foi o que escolhemos para a cena. E não tinha como ser diferente.

Quando a figurinista e o cabeleireiro chegaram, falamos sobre a ideia. Ken Walker é o responsável pelos penteados, e ele disse: "Quer saber? Quando fizermos a cena, quando vocês vão para o escritório da advogada, ela deveria estar usando uma peruca diferente". Porque muita gente não se dá conta de que mulheres negras – temos cabelo embaixo da peruca. Não é que a gente não tenha cabelo. Não estamos usando peruca porque não temos cabelo. É que ... é assim que eu quero que você me receba. Estou cuidando dos negócios. Então essa é minha peruca de negócios.

Nesse momento, a sensação foi de que estávamos levando o xale além. E se você colocar a peruca, e experimentasse três diferentes, pensando: "Vou levar essa. Essa é a melhor". Isso é Nova York, entrar no avião e dar-se conta de que é isso o que você tem de fazer. Minha peruca me faz me sentir melhor, porque batom, peruca, esmalte, roupas, tudo ajuda. Sua postura muda. Nada mudaria no momento em que ela fizesse o que tinha de fazer. Era muito mais que isso. Muito mais do que a mera aparência.

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