Médico que trata vítimas de abuso e ex-escrava sexual do Estado Islâmico recebem Nobel da Paz



Ativista Nadia Murad e ginecologista Denis Mukwege são homenageados em Oslo por luta contra violações e impunidade

O Globo com agências internacionais



OSLO — Ex-escrava sexual do Estado Islâmico e ganhadora de 2018 do Nobel da Paz, Nadia Murad apelou à comunidade internacional, enquanto recebia o prêmio em Oslo, para proteger seu povo yazidi e trabalhar pela libertação de milhares de mulheres e crianças que permanecem nas mãos de jihadistas. Ao lado dela, também homenageado com a láurea o médico Denis Mukwege, atende mulheres estupradas no leste da República Democrática do Congo e denuncia abusos do poder local.


"Se a comunidade internacional deseja realmente assistir as vítimas deste genocídio (...) deve assegurá-las a proteção internacional", destacou a jovem de 25 anos, no discurso de agradecimento.




Murad considerou "inconcebível" que o mundo não tenha feito mais para libertar as mais de três mil pessoas da minoria yazidi que o Estado Islâmico ainda detém. Com apenas 25 anos, ela sobreviveu a meses de calvário nas mãos de extremistas no Iraque e se tornou porta-voz da defesa dos direitos da minoria.

A jovem iraquiana foi agraciada com este prêmio em outubro, junto com o médico congolês Denis Muwkege, por seus esforços para "pôr fim ao uso da violência sexual como arma de guerra".

Primeira personalidade iraquiana a receber a láurea, Nadia Murad ecoa, da Alemanha, onde vive, "o combate de seu povo para que os países europeus acolham os deslocados yazidis e para que se reconheça como genocídio as perseguições cometidas em 2014 pelo Estado Islâmico".

Em agosto de 2014, ela foi sequestrada e levada à força para Mossul, um bastião do EI reconquistado há mais de um ano. Este foi o início de um sofrimento de muitos meses: torturada, disse ter sido vítima de múltiplos estupros coletivos antes de ser vendida diversas vezes como escrava sexual. Naquele ano, o EI teve uma rápida ascensão e assumiu o controle de amplas faixas do país. Em agosto, foi o povoado de Murad, perto do reduto yazidi de Sinjar (norte), que sucumbiu à invasão dos jihadistas.

Os yazidis, uma minoria de fala curda adepta a uma religião esotérica monoteísta, foram alvo no Iraque do ódio dos jihadistas que empreenderam contra eles uma campanha qualificada de genocídio pela ONU. Em 2014, o Estado Islâmico matou milhares de yazidis em seu bastião do Monte Sinjar, e sequestrou milhares de mulheres e adolescentes para torná-las escravas sexuais.Nadia Murad discursa ao receber Nobel da Paz, em Oslo Foto: NTB SCANPIX / REUTERS



Denis Mukwege ficou conhecido na República Democrática do Congo por ajudar mulheres abusadas e denunciar o poder local. O ginecologista congolês fundou um hospital e uma fundação para atender as vítimas do estupro como arma de guerra. No discurso de agradecimento do prêmio, ele pediu ao mundo que deixe de ignorar as vítimas de violência sexual nos conflitos.

"Não são os autores da violência os únicos responsáveis de seus crimes, mas também o são os que decidem olhar para outro lado", afirmou o congolês. "Se temos que mover uma guerra é uma guerra contra a indiferença, que corrói nossas sociedades".

Antes de receber o prêmio, nesta segunda-feira, o médico alertou que as eleições presidenciais deste mês na RDC podem levar a conflito se não forem livres, justas e pacíficas. Ele alerta que os indícios não apontam para este caminho no pleito — a primeira transferência de poder democrática do país e o fim do comando do presidente Joseph Kabila, no poder desde 2001.

No ano de 2018, crucial para a RDC, que se prepara para virar uma página de sua história, o júri do Nobel premiou uma das vozes mais críticas do regime de Joseph Kabila, mais ouvida no exterior do que no próprio país.

"O que eu vi no meu país não me passou segurança (sobre as eleições). Há pouca preparação eleitoral e muita preparação militar. Eu estou muito preocupado de que essas eleições não sejam livres, justas, com credibilidade e paz. Se houve fraudes em massa, apoiadores (dos candidatos derrotados) não vão aceitar", ressaltou o médico à agência Reuters antes de receber o prêmio.

Segundo o Nobel da Paz, a violência tem piorado nas fronteiras com Ruanda, Uganda e Burundi. Ele teme que o governo prepare um regime opressor. Kabila deveria deixar o cargo em 2016, ao fim do mandato constitucional, mas a eleição foi repetidamente adiada, o que motivou protestos no país.

Mukwege, 63 anos, é casado e pai de cinco filhos. Estudou na França, onde poderia trabalhar, mas tomou outra decisão: escolheu retornar a seu país e permanecer nele nos momentos mais difíceis. Sua luta pela dignidade das mulheres que são vítimas dos conflitos que devastam o leste da RDC há mais de 20 anos e suas palavras como porta-voz de milhões de civis ameaçados pelos grupos armados em Kivu o deixaram exposto a todo tipo de perigo.



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