‘O Pequeno Príncipe Preto’ chega aos palcos com sua aula de empatia e coletividade

Baseada no clássico de Saint-Exupéry, peça chega a São Paulo depois de ter sido vista por mais de 10 mil pessoas no Rio de Janeiro


Sucesso no Rio de Janeiro, assistido por mais de dez mil pessoas em quatro meses, o monólogo O Pequeno Príncipe Preto causou uma revolução nas plateias de teatro infantil: em geral quase todos brancos, os espectadores do espetáculo são majoritariamente negros. A história do príncipe que viaja o universo espalhando mensagens de amor, empatia e tolerância, e exaltando a cultura nascida na África, acabou por aplacar uma demanda reprimida de quem não se vê representado nos palcos, conta o ator e idealizador da peça, Junior Dantas.

“É um espetáculo de empoderamento. As crianças negras nunca tiveram um super-herói negro para se espelhar. O mundo lhes diz: ‘o seu cabelo é ruim, a sua cor é feia’”, comenta Dantas. “Elas saem achando que podem ser tudo o que quiserem. Os pais dizem: ‘por que esse espetáculo não existia 30 anos atrás, quando eu era criança?’ Os abraços que recebo são muito fortes. Às vezes fico mais tempo com o público na saída do que fazendo a peça. A gente tem que se unir cada vez mais, se aquilombar. Os racistas não surgiram agora, mas estão saindo do armário.”

Foi dele a ideia de criar um príncipe negro, com novas referências, a partir do clássico universal de Saint-Exupéry de 70 anos atrás. Ele partiu de um episódio que marcou sua vida: aos sete anos, na sua cidade natal – Ipueira, no Rio Grande do Norte –, Dantas queria ser o príncipe de um montagem teatral. Mas a professora lhe disse que ele não podia, porque príncipes eram louros. “Eu olhava na televisão e realmente os príncipes eram todos louros. Cresci com isso”, rememora.

Tendo por companhia um baobá agora sagrado, o Pequeno Príncipe Preto esbanja autoamor, e se orgulha de seu nariz, seus lábios e seu cabelo – “ele é crespo, não é ruim! Não fala mal de ninguém”, ele descreve, para risadas da plateia. Ao se ver numa situação de competitividade, reflete: “Como posso ficar feliz de ganhar, se outros vão ficar tristes por perder?”

A palavra que mais repete é ubuntu – a filosofia africana que quer dizer “eu sou porque nós somos”, ou seja, “a sua dor é a minha dor”, “as nossas existências estão interligadas”. Uma aula de empatia, generosidade e senso de coletividade que as crianças assimilam com facilidade, embalada com música (violão, violoncelo e percussão tocados ao vivo) e num cenário todo de papelão.

Desde a estreia, o autor e diretor, Rodrigo França, tem percebido que a peça aplaca a carência dos espectadores negros por este tipo de representatividade. “Somos 54% da população, mas não estamos representados em muitos setores da cultura. Não se fala da nossa ancestralidade, da África da realeza. Nas escolas, a África é mostrada como um lugar da dor e da pobreza, e quando se fala de escravidão”.

O espetáculo já foi encenado em escolas públicas e em favelas, como o Complexo da Maré e a Cidade de Deus. Em São Paulo, haverá apresentações no Sesc Bom Retiro (até amanhã, 4), Sesc Ribeirão Preto (dia 10), Sesc Campinas (dia 11), Sesc Jundiaí (dia 15) e no Teatro Municipal de São Paulo (dia 20).

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