Livros infantis com personagens negros mostram representatividade



Grande parte dessas produções não falam apenas sobre questões raciais, mas sim sobre temáticas diversas

A imersão no mundo da literatura ocorre cedo para algumas pessoas. Além de fazerem parte da rotina escolar das crianças, ajudando na alfabetização, os livros infantis são ferramentas importantes na formação das ideias e da personalidade dos pequenos: a leitura também se transformou em forma de representatividade. Por meio das histórias contadas nos livros, crianças negras se identificam com personagens afrodescendentes e ganham modelos e figuras de referências.

Pensando nisso, a professora, dramaturga e escritora Cristiane Sobral uniu-se à filha de apenas sete anos, Ayana Sobral, para uma viagem no mundo das letras. Juntas, elas escreveram o livro Tainá — A guardiã das flores. A obra ganhou ilustrações da artista NeMaria.

O livro conta a história da menina Tainá, que mora em um país do tamanho de um estádio de futebol. O lugar é conhecido por ter as flores mais lindas do mundo “A Tainá é negra e todas as pessoas do país são negras. Ela começa a perceber que o país está ameaçado porque as pessoas não veem a beleza das flores”, explica Cristiane.

A autora conta que a ideia de escrever um livro surgiu da própria filha. “Ela me disse: ‘mamãe, eu tô cansada de ver racismo nos parquinhos. Quero que a minha personagem seja negra, muito bonita e use cabelo curto e crespo. E quero que saibam que nós temos vida, temos família e nossas famílias são coloridas’”, relata a mãe.

Autora há 18 anos, Cristiane nunca havia escrito um livro para crianças. Ela publicou o primeiro trabalho infantil pensando em desconstruir a imagem que os personagens negros costumam ter neste tipo de material. “As personagens estão sempre naquele contexto de pobreza, miséria, ou com traços muito feios, com os quais a criança não se identifica. Eu quero que o livro estimule a autoestima da criança afrodescendente”, explica.

Grande parte dessas produções não falam apenas sobre questões raciais, mas sim sobre temáticas diversas. Entretanto, a importância de trazer protagonistas negros e negras é a do impacto e a da sensação de representatividade causada nos pequenos. “Eles se vêem no desenho”, afirma Cristiane.

Para ela, incentivar as crianças a consumirem livros com personagens negros é essencial não apenas para afrodescendentes. “Eu acho que esses livros são um verdadeiro processo de educação das crianças e dos pais. Quando esses pais estiveram na escola, eles não foram alfabetizados na questão racial, não aprenderam a lidar com a diversidade”, afirma a autora.

Interessados em comprar Tainá — A guardiã das flores ou agendar palestras e eventos infantis sobre a temática podem entrar em contato com Cristiane por meio do endereço de e-mail livroscristianesobral@gmail.com.

Caçadora de títulos


A autora e livreira Luciana Bento tomou a busca por livros infantis para crianças negras como uma missão. A profissional é criadora do blog A mãe preta, no ar desde 2014. “Criei o site porque eu procurava conteúdo sobre a maternidade negra, falando sobre racismo na infância e sobre criar crianças negras. Eu não encontrava nada”, explica Luciana.

Ao lado do marido, ela também cuida de uma livraria itinerante, com foco em obras sobre conteúdo negro. Luciana conta que, após tornar-se mãe, começou a buscar livros infantis com personagens afrodescendentes. “Desde pequena eu lia muito, mas não me via muito representada nos livros. No começo eu não reparava muito isso, mas depois de adulta e com filhas pequenas isso começou a chamar muita atenção, porque eu queria que minhas filhas se vissem nos livros, que elas pudessem ler e falar ‘olha, essa menina parece comigo’”, ressalta.

Assim nasceu o projeto 100 meninas negras. A iniciativa é uma página na internet, onde Luciana cataloga apenas obras infantis com personagens afrodescendentes. “Começamos a garimpar no acervo das editoras, percebemos que tem muita coisa publicada, tem muito livro, mas muitas vezes não estão em destaque nas livrarias, é difícil de encontrar”, conta a criadora do projeto.

Atualmente, Luciana já catalogou 200 livros, mas realiza a atualização no blog aos poucos. Para ela, é importante que as crianças cresçam e tenham as personagens dos livros como referências. “Eu percebi uma diferença enorme nas minhas filhas, por exemplo. Elas têm acesso ao acervo, e eu percebo como elas se identificam com a estética, com o cabelo das personagens. Elas veem princesas pretas, e podem ver personagens diferentes desse modelo Disney. Além de serem princesas negras, às vezes, os livros as colocam na África ou no Brasil, num contexto muito mais próximo culturalmente”, explica Luciana.

Outros títulos

Caderno sem rimas de Maria


Lançado este ano, o livro de Lázaro Ramos é inspirado na filha do artista. Publicada pela editora Pallas, com ilustrações de Maurício Negro, a produção é a terceira obra infantil de Lázaro. De forma poética, o autor aborda os diálogos realizados com a filha Maria e o filho João no cotidiano, repletos de questionamentos divertidos, invenções e rimas.

Amoras

Em 2018, o rapper Emicida lançou o primeiro livro infantil da carreira. Amoras, ilustrado por Aldo Fabrini e publicado pela Companhia das Letras, é inspirado numa canção homônima do artista. A obra fala sobre ter orgulho de quem se é e sobre reconhecer a própria identidade no mundo.

Que cabelo é esse, Bela?


Escrito por Simone Mota e ilustrado por Roberta Nunes, Que cabelo é esse, Bela? fala sobre aceitação e amor aos cabelos crespos. Publicado em 2018, pela editora Brasil, o livro também aborda bullying e racismo durante a infância.

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