Amar a própria negrura como um ato político



Muito menina tinha uma dificuldade imensa em me colocar diante do espelho: sentia que eu não era aquela pessoa refletida ali. O espelho só me apresentava limitações: o nariz que diziam que era largo demais e recomendavam colocar pregador para afilar. Os cabelos cheios demais o suficiente para cobrir duas cabeças e eram amarrados em tranças grossas e esticadas, que puxavam até meus olhos. A boca que com a adolescência parecia muito grande.

O espelho me lembrava tudo isso: sobre todo o desconforto de ser quem eu era, uma garota negra, com pouquíssimos estímulos para gostar de si mesma. Dito isso, quero sinalizar que esta não é uma crônica lacrimejante. A despeito do que qualquer olhar apressado possa apontar adianto aqui a minha conclusão: o ato de amor por uma pessoa negra é um gesto político poderoso, transformador e desobediente.

Este não quer ser um texto de auto-ajuda – não é uma apologia ao ame-se, do contrário ninguém vai te amar. Essa máxima simplória não dá conta de estruturas pesadas, seculares, universais que balizaram práticas históricas, filosóficas e sociais que durante séculos negaram a humanidade de pessoas negras.A negação da humanidade de pessoas negras fez parte de um projeto universal de mundo – não ter piedade, nem empatia, nem vislumbrar no corpo negro a existência de uma alma foi estratégico para tornar razoável a escravidão africana transcontinental e a colonização dos territórios africanos, o desmonte das estruturas africanas de pensamento e conhecimento e toda sorte de exploração e violências sobre corpos negros, ainda mantidas hoje.

O corpo negro é violentado de modo cotidiano, constante, ora sutil, nas mais delicadas estruturas da linguagem, do pensamento, dos sentimentos, seja explícito, nas práticas cotidianas de discriminação racial.

As invocações constantes para ser forte, guerreiro e resistente sufocam as fragilidades, a autoestima baixa, as violações de direitos recorrentes, a violência sistêmica e os mais variados níveis de luto. O filósofo Achille Mbembe fala sobre o luto constante sentido por pessoas negras, cujas perdas são tão frequentes, que a assimilação da dor não se faz possível. A pesquisadora brasileira Neusa Santos falava sobre a ferida narcísica gerada sobre corpos negros, acostumados a se pensarem como restritos, sem o direito de viver suas potências e múltiplas possibilidades.

Convoco uma terceira pensadora, bell hooks, que nos diz sobre a urgência de cultivar o amor como um ato revolucionário – sabotar o projeto de ódio a tudo o que é negro, primeiro em si mesmo e em seguida no mundo a sua volta. Amar a própria negrura aponta para afirmar a própria liberdade, a beleza, sensibilidade, direito ao cuidado, ao afeto, ao amparo.

Amar o seu rosto negro no espelho representa romper com qualquer limitação imposta – significa reconhecer-se vasto, belo e digno de ser potência.
Fonte :Correio 24 Horas

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