Corpo de Mr. Catra é sepultado no Rio na presença de famosos, amigos e parentes



O enterro de Mr. Catra se transformou num baile funk com pancadões de tristeza, nesta terça-feira. Parentes, amigos e artistas se despediram do cantor no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, cantando funks do artista como "O simpático". Cerca de 500 pessoas se reuniram para o último adeus ao cantor, que morreu no último domingo em São Paulo em decorrência de um câncer gástrico. Além dos funks, acompanhados por instrumentos de percussão, os presentes na despedida carioca entoaram canções do cenário gospel. Em outro momento, amigos lembraram que o artista, judeu convertido, morreu no dia do ano novo judaico. No local do sepultamento, um pastor evangélico frisou que o artista ajudou a construir uma igreja em Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio. Catra é um funkeiro ecumênico.

DJ Marlboro, que descobriu o talento do cantor e o lançou, relembrou o que chamou atenção no músico:


— Na época, era Dr. Rocha e Mr. Catra. A primeira música que lançamos dele foi em 1995. Ele tinha uma personalidade ímpar. Ele assumia e era o que era. Tinha uma liberdade de ser o que queria ser. Isso era admirável. Ele se foi novo. Tinha muito para contribuir com o funk. Ele tinha um discurso de empoderamento, da forma dele, de como ele acreditava. As pessoas viam o Catra brincalhão, mas ele tinha algo de família, de generosidade, muito grande. Ele era autêntico, verdadeiro e generoso.

DJ Marlboro, que lançou Mr. Catra no funk, falou sobre a trajetória do artista Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo


Doca, que fez parte da dupla Cidinho e Doca, avaliou a contribuição do artista para o funk. O cantor e a dupla gravaram canções de improvisação e cantaram juntos em bailes da Zona Norte do Rio de Janeiro.

— Ele é o pai do funk. Ele não chegou na primeira geração nossa, mas mudou a história do estilo musical. Nos conhecemos no Morro do Borel. Na época, ele estava com os hip hops dele e tal, e firmamos um elo de irmandade. Num dos primeiros shows, fomos nós que o puxamos para cima do palco. Ele cantou o "Rap da Felicidade". Ele falava do quanto o movimento funk precisava se unir porque a gente apanhava muito — disse Doca, que não conteve as lágrimas ao lembrar das críticas.

MC Doca chorou ao recordar a defesa de Mr. Catra ao funk Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo


Jojo Todynho, que gravou um clipe com Mr. Catra no primeiro semestre, também mostrou comoção ao se despedir do artista:

— Estivemos juntos na gravação do vídeo da música "Fã do rabetão" uns meses atrás. Ele era uma pessoa maravilhosa. Quando o vi, ele estava se tratando. Quando fiquei doente, com febre, ele me ligou preocupado porque não fui para São Paulo. Ele dizia: "Filha, fica bem. Qualquer coisa, Paizão está aí". Ele sempre acreditou que ia ficar bem. Mas ele encontrou a glória.


Jojo Todynho chora ao se despedir de Mr. Catra Foto: Custodio Coimbra/Agencia O Globo


Romulo Costa, criador da Furacão 2000, falou sobre a referência do cantor para outros artistas:

— Ele vai deixar um legado e uma saudade muito grandes. Havia uma geração que se inspirava nele. Era nosso intelectual do funk. Em todas as brigas e em todas as guerras, se a discussão era o funk, ele estava lá para defender. Viveu intensamente os 49 anos de vida. Tem 30 filhos, dois adotados. Ele particiou do DVD da Furacão 2000 e vai deixar uma lembrança muito grande.

O cantor Buchecha se emocionou ao recordar os encontros com o amigo, que iniciou a carreira no rock e no hip hop:

— Conheço coo Mr Catra da época do Dr. Rock, tocando guitarra. Mesmo com aquela aparência mais fechada, o Catra sempre foi um cara dócil entre a gente. As pessoas sempre respeitaram muito sua história dele. Ela era controversa porque ele era cem por cento favela. Foi uma escolha dele querer estar no meio da comunidade, das pessoas dali. Um cara culto, inteligente. Toda vez que ele abria a boca nas entrevistas dava para perceber que ele era de opiniões. Hoje é um momento de despedida. É complicado falar. Realmente fica uma lacuna.

O cantor Buchecha se despede de Mr Catra Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo


Mr. Catra foi diagnosticado com um câncer gástrico em 2017. O diagnóstico fez o cantor tentar eliminar o hábito de fumar e reduzir a ingestão de bebidas alcoólicas. No último ano, o artista emagreceu mais de 30kg e, debilitado no último mês, não resistiu à doença. Doador de órgãos, Catra terá as córneas transplantadas para uma menina de 11 anos.

Amigos e parentes carregam o caixão de Mr. Catra Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo



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