Benzedeira do Rio conta que cura de tudo, como a dona Mercedes, da novela das 21h



O povo todinho de Pedra Santa — cidade fictícia da novela “O outro lado do paraíso”, da TV Globo — corre para a dona Mercedes, personagem de Fernanda Montenegro, quando tem um problema. Pode ser mal de saúde ou de espírito. A senhora, então, vai ao altar e reza, como ela diz, para “eles”, os espíritos que a guiam. É mais ou menos isso que acontece em Engenheiro Paulo de Frontin. É para o socorro da benzedeira Odilia Santiago, de 94 anos, que todo mundo corre com qualquer suspeita de quebranto, espinhela caída ou vento virado.




— Eu sou benzedeira. Curo uma porção de coisas — garante: — Se Deus der força, só vou parar quando ele me levar embora. Porque lá é outro mundo.







Dor de cabeça, de dente ou “ofendido” de cobra também podem ser curados pela dona Odília. Qualquer coisa, diz. Ela conta que tudo começou quando tinha 12 anos e viu o espírito de um índio, que se apresentou como Cabloco Pedra Branca. Este é o guia espiritual da benzedeira do interior do Rio.

Ele tem cabelos comprido, é grande e não tem um braço — relata: — Já venci muitas lutas com a ajuda dele. E, se Deus permitir, vou vencer muitas outras.

Tem dia que dona Odilia reza o dia inteiro. Tanto que ela até esquece de comer. Ninguém que vai na casa dela fica sem ser atendido. E não precisa pagar nada.

Ah, eu me acho muito feliz. Graças a Deus. Eu estou vivendo em casa, meus filhos cresceram, casaram… Estou tocando a vida. Eu não tenho medo da morte. A hora que Deus quiser me levar, eu vou. Só peço para não ficar na cama dando trabalho para os outros. A morte é natural. Esse é um dom de Deus mesmo. Desde pequena que eu ouvia e via as coisas. Acho que Deus me deu esse dom porque eu sofria muito. Deus me ajuda que eu vou vencendo — diz a senhorinha, que não vê novela: — Toda hora tem gente aqui para eu rezar. Aí não consigo ver TV.

Futuro se revela no sonho

Dona Odilia vive numa casinha vermelha no alto do Morro do Sossego. De lá, é possível ver a cidadezinha quase inteira, onde vivem quase 14 mil habitantes. No entanto, a benzedeira pode ver ainda mais longe quando dorme: ela diz que o futuro é revelado a ela nos sonhos.




— Quando aconteceu a explosão que meu esposo fartou (morreu) na fábrica, eu sonhei antes. Eu falei para o meu esposo: “Se eu fosse o dono da firma, eu não abria a fábrica. Porque eu sonhei com uma explosão muito forte”. Falei no café. Quando foi 9h, teve a explosão e ele morreu — lembra.

A senhorinha nasceu em Monte Verde (MG), se mudou para São Paulo e, aos 12 anos, chegou ao interior do Rio. Já perdeu 11 dos 15 filhos que teve. Uns fartaram, como ela diz, criança. Outros, casados.

Eles estão bem empregados ao lado de Deus —diz.

Glossário

As enfermidades que dona Odilia enfrenta são difíceis até no nome. Entenda aqui:

Quebranto

É o chamado mal olhado: uma influência malévola que uma pessoa manda para outra.

Ofendido de cobra

Picada de cobra.
Altar de dona Mercedes, da novela 'O outro lado do paraiso'
Altar de dona Mercedes, da novela 'O outro lado do paraiso' Foto: Raquel Cunha / divulgação


Vento Virado

É uma enfermidade de bebê. A tradição popular diz que quando a criança toma um susto ela fica de vento virado e começa a fazer cocô verde. Só uma benzedeira, de acordo com a lenda, resolve o problema.

Espinhela Caída

É uma doença que deixa a pessoa com dores no tronco, no estômago e nas pernas.
Fonte : Extra

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