Jurema Werneck: ‘Ser mulher negra no Brasil de hoje é sinônimo de luta’

Em entrevista ao HuffPost Brasil, diretora da Anistia Internacional no Brasil fala sobre militância e combate ao racismo no País.



“E sempre que surgia alguma notícia de Lecy Brandão ou de Angela Davis no jornal meus pais me falavam o quão admiráveis elas eram. E elas ainda são, né? E eles sempre diziam: ‘Elas estudaram'”.

Lembrar e se inspirar em mulheres que resistiram em um mundo hostil e violento. Foi, em parte, pela admiração por mulheres como Lecy Brandão e Angela Davis, que Jurema Werneck, 56 anos, fundadora da ONG Criola e atual diretora Institucional da Anistia Internacional no Brasil, conseguiu um impulso para vencer o desgosto pelos estudos, alimentado por um déficit de atenção na infância.

“Minha bisavó, minha avó, minha mãe, Angela Davis e Lecy Brandão foram mulheres muito importantes para que eu aprendesse sobre o mundo, de fato”
, conta em entrevista ao HuffPost Brasil. Hoje, a menina bisneta de escrava que nasceu no Morro dos Cabritos, em Copacabana, no Rio de Janeiro, venceu, trilhou caminhos, é médica, especialista em comunicação e está no mesmo patamar das mulheres citadas por ela.

Para Werneck, hoje, 25 de julho, Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha é um dia não só para lembrar as mulheres que ajudaram a construir o passado, mas também para celebrar as que ainda trilham novos caminhos. “Hoje é um dia para marcar. Para celebrar. Nós, mulheres negras, somos parte desse continente, ajudamos a construir isso. Ser mulher negra no Brasil de hoje é luta. É sinônimo de luta”.

E uma luta dramática para combater a vivência de mulheres negras no Brasil, que é explicada em números: segundo o Mapa da Violência 2015, os homicídios de mulheres negras aumentaram 54% em dez anos no Brasil, passando de 1.864, em 2003, para 2.875, em 2013. No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%.

Á frente da ONG Criola desde 1992, a ativista colocou na prática mecanismos para expor violências, muitas vezes, invisíveis e que, até hoje, promove iniciativas de educação, mobilização e campanhas de comunicação com foco no combate ao racismo. Como diretora da Anistia Internacional seu papel se amplia:

“A Anistia quer, cada vez mais, estar perto das pessoas que têm seus direitos violados, para agir de forma mais precisa, mais adequada. E ela me escolhe por isso. Eu sou uma ativista de chão: próxima de favelas, de movimentos de mulheres negras, movimentos indígenas; de várias esferas que lutam por direitos”.

Em conversa por telefone com o HuffPost Brasil, a diretora institucional da Anistia Internacional no Brasil falou sobre o que é ser uma mulher negra no Brasil atual, falou sobre suas inspirações combate ao racismo, e o atual momento político no País e no mundo.
Mulher, negra, luta
“Ser mulher no Brasil de hoje, de certa forma, é ser parecida com ser mulher no Brasil… desde o começo. É ter que enfrentar o racismo, a violência, a exclusão, condições de vida extremamente precárias. E, por outro lado, ser mulher negra no Brasil de hoje é, como no passado, protagonizar lutas cotidianas para ocupar lugares e para que o mundo seja um lugar mais justo, seguro e íntegro para cada uma de nós. Ser mulher negra no Brasil de hoje é luta. É sinônimo de luta.”
O que mudou?
“Bom, eu acho que… Eu acho que viver em um País racista sempre é e foi muito ruim. Então, dessa perspectiva, isso não mudou. Continua sempre sendo muito ruim. Mas do ponto de vista mais material, concreto, eu tive o privilégio de conviver com a minha bisavó que morreu aos 101 anos e nasceu em 1888 e eu sei que muita coisa mudou. A experiência dela como menina, jovem, e a experiência dela como adulta, idosa foi muito mais difícil do que a que a minha foi. E eu posso dizer que as jovens de hoje em dia, ainda vivem muitas coisas ruins, muitos desafios, vivem de um jeito diferente também. Inclusive, essa possibilidade. 

A possibilidade de encontrar uma brecha. A brecha de encontrar um caminho melhor do que o jeito como a minha bisavó viveu. Assim como eu fiz. Mas ainda assim continua muito difícil. Cada qual tem o seu fardo para carregar.”

Sobre as que vieram antes de nós
“Nossa. Sim. Bom, a mãe dela tinha sido escrava. Então ela contava coisas que… Ela já nasceu em 88, ela não viveu a escravidão, mas viveu o ruim que a república significou para a população negra. Por que o fim da escravidão foi uma esperança, mas a república que foi instalada fez com que a ideia de liberdade fosse destruída quotidianamente. Os descendentes de escravos, ex-escravos que estavam aqui no Brasil na primeira… no início do século XX, eles eram violentamente vistos como indesejáveis e tiveram que se virar sozinhos para ter uma vida digna. Minha bisavó teve uma vida muito difícil aqui no Rio de Janeiro. Ela nasceu em Minas, mas veio para o Rio depois. Ela teve uma vida muito difícil no Rio de Janeiro e é uma construção isolada. Não isolada a pessoa, pessoa, qualquer. Os negros e negras sempre se ajudaram em comunidade, mas era uma carga muito grande. O nome da minha bisavó era Maria Terrínea do Amaral. Era um fardo, mas vale a pena destacar que essas mulheres foram as que lutaram para a gente chegar até aqui.”
E o Brasil?
“Com certeza (as reformas) são uma forma de retrocesso. A PEC do Teto é muito grave, no sentido de que ela acaba com ferramentas que a gente tinha para lutar, para alcançar e garantir mais direitos. As propostas de reforma trabalhista e previdenciária também são uma desvantagem do mecanismo que a gente tinha para lutar para que boa parte da população acendesse. E, diante disso, é preciso prestar atenção: as mulheres negras já estavam excluídas desse processo todo. Elas são a maioria da população e que está no mercado informal. Ou seja, a previdência já não nos alcançava. Nós não estamos perdendo direitos. Estamos perdendo a esperança de algum dia ter direitos. A reforma trabalhista está aprovada, mas ainda tem muita luta. Tem muita coisa para fazer.”
A ressignificação
“Toda essa bagagem, essa casca, a gente traz da experiência com a dor, com a ferida. Na Anistia, nós lidamos com gente que tem os direitos violados veementemente e essas pessoas são ótimos exemplos de resistência. A condição que de uma mãe que teve seu filho morto pela polícia do Rio de Janeiro, por exemplo. Essas mães estão em luta e não é isso que vai trazer seu filho de volta. Mas elas fizeram uma escolha olhando para a frente. É possível apostar no futuro. É possível lutar. É possível se juntar com outras pessoas. É possível fazer movimento. O medo tem a utilidade de dar naturalidade à nossa coragem. Não é para nos paralisar, e para dar ação à coragem.”

Opinião da Preta :Sim .... "Ser mulher negra no Brasil de hoje é luta. É sinônimo de luta.”

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