Rosângela encara dirigir Uber para manter a carreira no atletismo

Sem apoio suficiente, velocista, já garantida no Mundial, mudou-se para os EUA e busca maneiras para bancar os treinos

Rosângela Santos voltou para casa, nos Estados Unidos, após o Troféu Brasil de Atletismo com o passaporte para o Mundial de Londres, em agosto, na mão. A velocista garantiu o índice nos 100 metros rasos com 11s24 (dois centésimos abaixo da marca mínima) e vai batalhar para melhorar o tempo nas próximas competições. O maior desafio dela agora é sustentar sua carreira fora do País.

A atleta do Pinheiros, que nasceu em Washington e cresceu no Rio de Janeiro, mudou-se para Miami em 2014 seguindo projeto da Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e do Comitê Olímpico do Brasil (COB) que visava a Olimpíada do Rio. Para o ciclo até os Jogos de Tóquio, em 2020, Rosângela mudou-se para Houston, onde assumiu todas as suas despesas.



“Estou sobrevivendo a cada mês. Foi bem difícil depois da Olimpíada do Rio. Só fiquei no Pinheiros e no programa de alto rendimento do Exército. Agora consegui fechar com a Nike, mas ainda estou com um pouco de dificuldade financeira. Estou procurando emprego para tentar complementar o pagamento das contas e suplementos na preparação’’, contou.

Em março, Rosângela recebeu a medalha de bronze do revezamento 4x100 m rasos dos Jogos de Pequim-2008, herdado após caso de doping da equipe da Rússia – o Brasil foi quarto. Apesar da honra, a conquista retroativa não lhe trouxe recompensa em dinheiro. Aos 26 anos e com três Olimpíadas disputadas, ela tem distribuído currículos para “qualquer coisa’’. A velocista chegou a tentar um financiamento coletivo online, mas o projeto de crowdfunding de R$ 60 mil não foi adiante.



Uma das opções é tornar-se motorista do Uber, aplicativo de transporte privado, nos Estados Unidos. Para isso, ela precisa esperar até novembro, quando sua carteira de habilitação em território norte-americano completará um ano. “O que conseguir no momento vai ser bem-vindo’’, diz. O plano é assumir um compromisso profissional que a possibilite ter flexibilidade para conciliar o emprego com os treinamentos em dois períodos e com as viagens para competições internacionais.

Em uma reunião no dia 11 de maio, Rosângela teve o nome indicado pela CBAt para receber o auxílio do Bolsa Pódio – a categoria mais alta do programa do governo federal destinada a esportistas com chances de disputar medalhas. A atleta, entretanto, não está entre os 20 primeiros colocados do mundo no ranking da modalidade e, por isso, teve o pedido negado.



A reprovação foi encarada com naturalidade pela velocista. “O critério tem de ser usado para todos. Estou com dificuldade financeira, mas outros atletas também estão e há alguns melhores do que eu no ano. Temos de ser justos e dar para quem merece. Não estava contando com a bolsa nesse momento’’, diz. Novas indicações podem ocorrer até outubro.

SEM VOLTA

Apesar da restrição financeira, voltar a morar no Brasil não é opção para ela. “Coloquei uma meta na minha cabeça e não tenho mais vontade de morar aqui por vários fatores: segurança, saúde e, principalmente, pelas oportunidades que tenho lá. Voltar não está nos meus planos, mesmo que tenha de trabalhar’’, justifica.

A vontade de ser inserida no mercado de trabalho também deve-se à preocupação com o futuro. “Tenho ensino médio profissionalizante, que me permite trabalhar com recreação de crianças até 11 anos, mas a falta de experiência está me atrapalhando um pouco. Minha vida de atleta vai acabar e preciso um plano para não ter surpresas.’’

Quando tiver mais estruturada nos EUA, Rosângela planeja retomar os estudos e sonha também com a maternidade. “Muita gente tenta me convencer a correr até os 34 anos. Nunca se sabe, mas, com certeza, eu vou parar para ter filho antes disso. Até Tóquio-2020 eu estarei muito focada, depois o planejamento vai ser ano a ano’’, projeta.
Fonte : Estadão

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