A beleza que incomoda


Diversidade é a palavra do momento! Gente de todos os tipos, cores e tamanhos é vista o tempo todo, principalmente nas propagandas das grandes marcas. Os cachos das mulheres negras estão cada vez mais estampados e assumidos, nas caixas de tinturas, catálogos de produtos de beleza das grandes marcas empoderando cada vez mais, aquelas que até pouco tempo, não podiam assumir as madeixas. Hoje é possível ver rostos negros na publicidade. Sempre lindas, lá estão as negras e mulatas mostrando a beleza brasileira tão cobiçada pelos gringos!

A tendência é mostrar gente com cara de ‘gente como a gente’! Grandes magazines e redes de supermercados, já adotaram em suas campanhas, famílias negras felizes e contentes fazendo suas compras. Porém, lá no background de tudo isso, alguns pontos ainda ‘incomodam muita gente’! Para que tudo fique lindo, há recursos audiovisuais muito conhecidos do mercado da fotografia e de vídeo, que são utilizados para dar uma “melhorada” no visual de modelos. Porém, o que deveria ser ferramenta de correção somente imperfeições (até não tão perceptíveis aos olhos do público em geral) tem sido aplicado de maneira altamente negligente, simplesmente para manter um certo ‘padrão de beleza’ aceitável aos olhos do público-alvo.

Para ficar mais claro, imagine que para a realização de uma campanha com modelos negras, uma das principais solicitações durante o casting é a necessidade de correções em pontos como nariz ou lábios. Sim! São alguns, os casos garotas que já perderam um trabalho para marcas de beleza por um detalhe…o nariz achatado, principal característica da raça negra.

Afinal, que negócio é esse de beleza que incomoda?

Edu Lopes, fotógrafo e proprietário do Click de Gente, estúdio especializado em reproduzir imagens de gente real, já realizou trabalhos em que retratou famílias brasileiras anônimas para grandes campanhas. “Nossa diversidade é algo fantástico. A periferia então é um verdadeiro banco de imagens. Ela tem sua beleza colorida e pop! Chega a ser tão rica e original que eu levo isso como referência em meu trabalho, mesmo porque foi onde passei infância e adolescência”, destaca.

Para o fotógrafo, a mina de ouro está ali, pois a mulher da periferia, por exemplo, muitas vezes de origem negra, é a que tem o corpo, os traços, boca, nariz, tudo carregado de muita originalidade. “São mulheres que trabalham, cuidam de casa, dos filhos, do marido, mas que mantém aquela beleza particular, ou seja, algo que é dela e ninguém tira e é exatamente o que eu retrato. Nós sempre mantemos a preocupação em fazer com que nossas imagens se comuniquem com o público comum para que se identifiquem com as fotos criadas para nossos clientes. As pessoas comuns querem se enxergar na publicidade das coisas que consomem! ”, aponta ele que mantém uma espécie de banco de imagens, que tem sido criado, a partir de uma ação denominada Esta Foto Me Representa, lançada há pouco mais de dois anos com o objetivo de captar personagens de pessoas comuns para estrelar campanhas publicitárias.

Padrão de beleza
Porém, mesmo com todas essas referências de agências especializadas em realizar fotos como as de Lopes, a beleza negra representada em peças publicitárias do país voltadas para os produtos de estética, principalmente, acaba passando por crivos e filtros que levam seus criadores a retratarem um padrão estabelecido por marcas, evitando alguns detalhes que consideram deixar o produto atrelado a rostos de pessoas “com cara de gente muito simples” ou “exóticas demais” para a campanha.

A indústria da beleza quer as negras estampadas em suas peças, mas buscam sempre o ideal de beleza que não é a real da raça: lábios mais finos, nariz afilado e rosto mais delicado. Com isso acabam utilizando recursos para amenizar, por exemplo, um nariz um pouco mais achatado de uma modelo, mesmo ela sendo uma beldade no quesito padrão de beleza da mulher brasileira. Isso realmente incomoda!

Autores: Edu Lopes, fotógrafo e proprietário do estúdio Click de Gente, e
Mônica Silva, jornalista e consultora de Comunicação da Crase Editorial / 

Para a Coluna 1Papo Reto do Jornalista , Escritor
Cofundador da Empresa Social Vale do Dendê
Sócio-fundador e Publisher na empresa Paporeto

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